Quais os atentados mais marcantes à língua portuguesa que a música brasileira tratou de imortalizar? O assunto é a matéria-prima das inserções que o professor de português Dílson Catarino, 45 anos, vem fazendo desde março nas edições de segunda-feira do Jornal do Meio-Dia da Rádio Universidade FM (107,9 MHz) de Londrina. No quadro, versos de canções do pop rock nacional e da MPB os estilos musicais favoritos do professor dentro da música brasileira são utilizados para comentar a gramática de nosso idioma.
''Minha intenção não é denunciar o erro nem criticar os compositores. Até porque existe a licença poética, que é uma espécie de permissão para que o letrista desrespeite algumas regras gramaticais. Eu nem gosto de chamar esses casos de 'erros', prefiro chamá-los de inadequações'', explica Catarino. ''O que acontece é que quando uma música faz muito sucesso, todo mundo canta e a inadequação acaba assimilada. Na música, tudo bem, existe a licença poética. Minha intenção no quadro é apenas mostrar que no dia a dia deve ser diferente. Na hora de escrever um texto, por exemplo''.
As inserções chegam no máximo a quatro minutos. ''Procuro ser rápido. Falar de gramática em rádio é algo que espanta ouvinte. Por isso, eu não falo 'gramatiquês'. Não adianta mencionar o verbo transitivo direto, o advérbio de intensidade. Uso uma linguagem não-técnica, para o leigo entender'', diz o professor. O quadro rendeu vários contatos de ouvintes e a direção da Rádio Universidade planeja expandir a atração, embora ainda não haja definições a respeito.
O professor explica que encontrar inadequações na MPB e no pop rock é tarefa difícil. ''Nos discos de Caetano Veloso, Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento, é praticamente impossível. O português deles é perfeito'', argumenta. O esforço acaba revelando pérolas (veja matéria nesta página) Catarino explica que a letra de ''Me Chama'' é um clássico das inadequações.
''Mas o que eu friso no quadro é que, muitas vezes, com um português totalmente correto, a música ficaria terrível. Alguém consegue imaginar o Lobão cantando 'chame-me, chame-me, chame-me'? Eu não compraria um disco desses'', ri. Catarino já foi comparado ao professor Pasquale Cipro Neto, mas diz que isso não o agrada. ''Ele tem o estilo dele e eu tenho o meu'', afirma.
O quadro no Jornal do Meio-Dia não é a primeira experiência de Catarino no rádio. Por cerca de três anos, ele apresentou o quadro ''Não Queime Sua Língua'' na Folha FM. Eram sete spots diários, em que a gramática da língua portuguesa era abordada através de exemplos de diálogos cotidianos. O professor também já teve envolvimento anterior com música: em meados da década passada, empresariou a banda de MPB Iguaranoise, que teve Ivo Pessoa (hoje no programa ''Fama'', da TV Globo) em sua formação.
Catarino conta que a partir de agosto deve voltar a apresentar spots semelhantes ao ''Não Queime Sua Língua'' na Folha FM e na rádio Jovem Pan, mas a atração terá outro nome. O quadro na Rádio Universidade continuará, embora o professor acredite que o modelo atual deve ser repensado em breve. ''Vou ser obrigado a mudar, porque uma hora vão se esgotar as inadequações em músicas conhecidas. Tenho que pegar canções de sucesso para comentar, porque as obscuras não 'prendem' o ouvinte''.

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