O misticismo, assunto abordado com frequência por Walmor Macarini em seus artigos semanais na Folha, poderia fornecer fartas linhas para uma eventual publicação de um livro.
Mas não foi desta vez. Na coletânea de crônicas ''A Voz dos Sinos'', que o jornalista lança hoje em Londrina, o tema aparece apenas sutilmente entre um texto e outro dedicado a personagens e episódios marcantes da história da cidade.
O livro é o último volume da série ''Crônicas de Londrina'', publicado pela Imprensa Oficial do Paraná em parceria com a Secretaria Municipal de Cultura e com patrocínio da Sercomtel. A sessão de autógrafos começa às 20 horas na Biblioteca Pública.
''O cronista tem uma outra ótica para enxergar os fatos. É uma visão que vai além do registro noticioso, incorporando ingredientes emocionais e poéticos. Ele fala na primeira pessoa, é um agente da ação narrada'' explica o autor. Macarini, 65 anos, tem 47 anos de profissão. Durante 27 anos foi editor-chefe da Folha de Londrina.
Hoje, no jornal, assina o editorial e artigos semanais. As crônicas reunidas no livro foram escritas na última década e meia. Da fornada de cerca de 100 textos, foram pinçadas 24 para compor o volume. O escritor Domingos Pellegrini, responsável pela seleção final, salienta no texto de apresentação da coletânea a crença diária do autor na democracia, na divergência, na variedade e na tolerância.
Destaca ainda a coragem e a independência do jornalista para enfrentar a censura durante o período da ditadura militar. Lembra que Macarini, então editor-chefe da Redação, era constantemte chamado a prestar esclarecimentos aos organismos de segurança pela publicação de matérias que escapavam à vigilância oficial. ''Por isso, vivia sob ameaça de prisão, que era uma espécie de terrorismo permanente na época, e, no entanto, nunca perdeu a serenidade e o bom humor'' anota.
O bom humor, aliás, tempera algumas das crônicas compiladas agora em livro. O autor observa que ''muitos dos textos são impregnados de ironia, brejeirice e leveza''. Em ''A Kombi das Abelhas'', ele relata com graça um episódio em que policiais rodoviários passaram a ''liberar'', sem revista, a passagem de uma kombi ''suspeita'' de um apicultor de Londrina. O motivo é que, numa averiguação anterior, eles tinham sido picados por abelhas após ignorarem o aviso do condutor do veículo sobre o perigo de abrir as caixas lacradas que transportava.
''Se o homem do mel fosse contrabandista, podia trazer o que quisesse. Era só botar a muamba na Kombi das abelhas'' diverte-se o cronista. No texto seguinte, ''Cinco patrícios das arábias'', Macarini divaga sobre a colônia libanesa em Londrina a partir das eleições municipais de 2000. Escrita na época das pré-candidaturas, antes da homologação dos nomes pelas convenções partidárias, ele chama a atenção para um fato curioso.
''Alguém estranho que chegasse hoje a Londrina, perguntasse o nome do prefeito e percorresse a lista dos candidatos a sucedê-lo, imaginaria que estivesse no Líbano, ou que esta cidade foi colonizada por árabes. Cinco compõem a Conexão Esfiha'' brinca ele, para depois enumerar Scaf, Farage, Hauly, Cheida e Assad. Na crônica que dá título ao livro, o autor fala sobre a ''volta dos sinos'' à Catedral, os mesmos sinos citados em outras duas crônicas do volume.
Macarini, a exemplo dos demais autores já lançados pela coleção, resgata a memória da cidade tematizando e, às vezes, defendendo com ardor sua paisagem, seus símbolos e seus personagens. A lista de ''homenageados'' inclui o Lago Igapó, os prédios históricos demolidos, as ruas, a saga dos pioneiros, a era áurea da cafeicultura, a zona do meretrício, o fundador-presidente da Folha, João Milanez, o ex-prefeito Antonio Belinati, o Rei Momo Dinho, o jornalista João Rímoli e a própria Folha de Londrina.
O autor confessa que até ser convidado pelo secretário de Cultura Bernardo Pelegrini para fazer parte da coleção, nunca havia pensado em publicar as crônicas. ''Os jornalistas são desligados em relação a isso'' acredita ele. O lançamento, porém, ameaça romper as resistências. ''Agora fiquei motivado. Já estou planejando reunir meus artigos místicos em livro'' revela.
O volume de Macarini é o oitavo da série ''Crônicas de Londrina'', que traz ainda os títulos de Jota Oliveira, Nelson Capucho, Edson Vicente, Apolo Theodoro, Lélio César, Paulo Briguet e João Arruda. Hoje, durante o coquetel de lançamento, ''A Voz dos Sinos'' estará à venda a R$ 10,00.
Serviço:
Lançamento do livro ''A Voz dos Sinos'', de Walmor Macarini. Hoje, na Biblioteca Pública de Londrina. Horário: 20 horas.

mockup