Um olhar afiado para as telas
PUBLICAÇÃO
domingo, 02 de fevereiro de 2003
Júlio Maria<br> Agência Estado 
Há uma mão estranha sob o balcão. Uma mão que não é de João Grilo, não é de Chicó, não é da mulher do padeiro, não é do padeiro, não é do bispo, não é do padre, não é de Jesus e não é do diabo. Uma mão de dedos longos, branca, de homem e que aparece quando Chicó abaixa a tampa do balcão de um armazém. Fica lá por segundos suficientes para causar arrepios. Um funcionário da produção do filme ''O Auto da Compadecida'' colocou os dedos onde não devia e entrou para uma lista no site dos erros mais estapafúrdios do cinema.
A mão foi flagrada por César Kós, 42 anos, um cinéfilo caça-mancadas de longas que já listou 173 erros do ''Homem Aranha'', 176 de ''Matrix'', 144 de ''Titanic'' e 46 de ''Indiana Jones e Os Caçadores da Arca Perdida''. A própria mão do ''Auto da Compadecida'' vira detalhe no mar de 40 outras falhas não percebidas pelo diretor Guel Arraes. ''Central do Brasil'' teria, pelos seus cálculos, 11 pisadas na bola. ''Eu Tu Eles'', 20. ''O Exorcista'', 19.
A interminável lista está no site Falha Nossa (falhanossa.com.br), que Kós criou para ter onde contar suas descobertas. São ao todo 455 filmes e 8.189 erros anotados por ele e por internautas que enviam suas colaborações. A página está virando moda e tem recebido 10 mil visitas por mês. Em uma eleição realizada pelo I-Best (uma espécie de ibope da internet), a homepage ficou entre as 10 melhores do Brasil.
O terror dos cineastas trabalha com uma tese perturbadora: ''Não há filme sem erro'', sentencia. Se for preciso, coloca a mesma fita no vídeo por mais de cem vezes para pegar descuidos de edição, montagem, continuidade. O filme que mais viu foi ''De Volta Para o Futuro 2'': 120 vezes. ''Aliens 2'' e ''Harry Potter'' foram rodados, cada um, mais de 100. ''Quando vou ao cinema levo um gravador para registrar o momento em que aparecem os erros.''
Houve dias em que Kós sentou-se na poltrona de um cinema e tentou ser normal. Imaginou que assistiria ao filme para se divertir comendo pipoca. ''Xuxa Requebra'' foi o escolhido. Na primeira cena, percebeu uma falha a cada 16 segundos. Em um momento um carro chega a uma escola e o bandido abre a porta para descer. No reflexo, lá está uma mulher da equipe de filmagem fumando um cigarro. Ao final estavam listadas 98 mancadas.
Susto veio também com ''O Xangô de Baker Street'', que Miguel Faria Jr. adaptou do livro homônimo de Jô Soares. Há uma série de erros clássicos como o cigarro que passa de uma mão à outra do personagem sem explicação ou um copo que esvazia-se milagrosamente. ''No primeiro assassinato, quando o assassino corta o pescoço da prostituta, você consegue observar em câmera lenta que o corte já está feito quando ele passa a adaga no pescoço dela. E, em certo ponto, parece que a adaga não tem nenhum sangue'', escreve o cinéfilo no site. ''Quando o filme terminou, já tinha 90 erros'', conta Kós.
Seu grande orgulho, porém, foi ter percebido um sombrio detalhe no longa ''O Troco'', de 1998, dirigido por Brian Helgeland. O personagem Porter rouba o distintivo de um policial que tem uma numeração que termina em seis. Cenas mais tarde, a numeração acaba em sete. ''É um tipo de erro que poderia mudar a história do filme. Provaria que Porter não roubou distintivo nenhum.''
Não há erro: quando houver uma mesma cena com tomadas diferentes, cortes de câmera e cenários com relógio, geladeira, aparelho de tevê, comida, bebida, cigarro, carros e óculos pretos, as falhas estarão lá. ''Bicho de Sete Cabeças'', de Laís Bodanzky, caiu na maldição do reflexo. Em uma cena que mostra o pai de Neto (Rodrigo Santoro), há um vidro na fachada de uma loja do outro lado da rua que entrega um cameraman sentado na frente de um carro, sua câmera e todo o equipamento de filmagem.


