Há quem diga que os profissionais de publicidade nunca relaxam, extraindo inspiração de tudo, até dos carneiros que contam para driblar noites de insônia. O designer gráfico Jefferson Hiroshi Endo, 57 anos, sofre desse ''mal''. Trabalhando numa agência de propaganda, ele não consegue se desligar do ofício.
''Para o profissional dessa área, tudo tem forma. É como a criança que 'vê' formas de pessoas e outras coisas nas nuvens. Virei um observador de plantão. Fico plugado direto. Mesmo quando durmo, a mente não para de criar. Às vezes, acordo durante a madrugada para fazer uma anotação ou esboços de logotipos para embalagens'', diz.
Há dois meses, ele passou a emprestar seu talento para a Folha de Londrina, colaborando com ilustrações para os vários cadernos do jornal. Artista do traço, Endo é mais conhecido como ''Jeff'', entre os cartunistas. Já participou de três edições do prestigioso Salão de Humor de Piracicaba. ''É um evento internacional, cuja comissão julgadora é rigorosa para selecionar o material. Nunca ganhei prêmios, mas tive trabalhos expostos ao lado de cobras'', assinala.
Suas incursões na imprensa local datam de uma década. Nos anos 90, publicou tiras em quadrinhos de um personagem chamado ''Guarda Abelardo'', um guarda-noturno que andava pelas ruas fazendo comentários sobre os problemas da cidade. ''Hoje ele estaria falando sobre os pombos'', salienta. A publicação durou cerca de 2 anos.
Foi interrompida porque o artista não estava conseguindo conciliar a criação das tiras diárias com as atividades num estúdio de propaganda. Na época, pensou em publicar uma revista com o material, mas desistiu da ideia quando percebeu que havia perdido os originais. ''Emprestei a pasta para um conhecido e ele não me devolveu. Nunca mais vi a pessoa. Naquela época não havia a tecnologia de hoje para deixar o material arquivado'', lembra.
Para ele, a tecnologia tornou-se uma ferramenta imprescindível, mas não central no processo de criação. ''O processo de criação é o mesmo, com o lápis e a caneta. Numa segunda etapa, scaneio e complemento o desenho. Dá até para desenhar no computador, mas fica artificial'', pondera. Autodidata, Endo descobriu sua vocação para os traços desde criança, quando já produzia gibis com histórias infantis e arrancava elogios dos amigos com seus desenhos.
Nascido em Londrina, mudou-se com a família para Astorga, onde viveu até os 20 anos. Depois morou um ano em Maringá e se estabeleceu em Londrina em 1978. Em Astorga trabalhou como pintor de painéis cinematográficos. Exerceu a atividade durante 10 anos, criando telas de filmes também para cinemas de Maringá e Santa Fé, todos pertencentes a uma mesma companhia.
''Eu tinha um ateliê enorme'', recorda. ''Trabalhava sozinho, não contava com equipe. Às vezes, pintava sete painéis de uma vez só para festivais de western spaghetti italiano. Não pude trabalhar com isso em Londrina, porque aqui já haviam craques atuando nessa área.'' A experiência deixou marcas em sua carreira profissional: ''Foi um aprendizado muito interessante, porque eu reproduzia fielmente a fisionomia dos atores. Também adquiri domínio das tintas, algo que nenhuma universidade me ensinaria''.
Durante esse período, ele passou a viver como um artista plástico, sem compromissos com horários ou exigências patronais. Uma pessoa queria presentear outra e lhe pedia para pintar um retrato dela a partir de uma fotografia. Fazendeiros da região lhe traziam fotos de bois para ele reproduzir em placas. Clubes sociais o contratavam para fazer a decoração de Carnaval. Foi a fase em que mais usou a técnica de pintura em óleo. ''Eu trabalhava muito, mas ganhava pouco'', explica. ''O problema é que é complicado viver de arte no Brasil. A pessoa tem que partir para atividades mais bem remuneradas. Por isso, parti para a propaganda. Hoje em dia, desenvolvo um trabalho independente de criação dentro de uma agência''.
Ao ser fotografado para a entrevista, o artista fez uma sugestão. Queria criar uma ilustração em cima da imagem. Quem ousaria dizer não? No resultado, um pouquinho da arte e do talento de Jeff.

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