WILSON BUENO
Um novo monstro índio
ReproduçãoNas sempre abafadas noites de Lábrea, à margem do remansoso Purús, na Amazônia, relatam os sertanistas ser possível ouvir, quando escuro feito breu o céu ameaça desabar em chuva, uns uivos que, por seu diapasão quase humano, aterrorizam os citadinos, por mais cientes estejam de que não invadirão a cidade, os pocovís - animais incalculáveis, e de trombas calcinadas. Do tamanho de um cachorro de porte médio, estes monstros desde sempre inscritos no imaginário dos índios kaxináuas, precisam da chuva que, quando tarda, lhes provoca, na pele ressecada, fendas, rachaduras, grandes feridas, e por isso uivam um uivo que apavora a cidade.
Os índios, ao contrário, correm em seu socorro, as cumbucas cheias de água, com o propósito de - quem sabe? - espargindo-a sobre o quebradiço couro, amenizar deles a agrura, ao menos enquanto a chuva não vem.
É comum, anotam os sertanistas, observar em meio aos relâmpagos e às trovoadas, índias e índios desencontrados, correndo a enfiar-se na floresta, as cumbucas cheias no alto da cabeça. Orquestração medonha, os pocovís arranham a terra, como se lhes faltasse o ar, e erguem as trombas dolorosas, terríveis contra o céu.
Tudo, entretanto, seria muito simples se os índios encontrassem de fato os pocovís. Não, os pocovís não se dão a ver, e sendo quase impossível enxergá-los, isto causa aos kaxináuas desusada agitação. É que alcançar visualisá-los tem para os índios um gozoso triunfo - molhando com a boa água do Purús um só destes bichos, - incapazes de entrar no rio pelo medo intransponível de perecerem afogados, pois são, desde sempre, incapazes de nadar -, terão esbarrado na pele de Tupã e, junto com ela, no dom da imortalidade. Não é pouca coisa, lembram os sertanistas, mesmo para um kaxináua, capaz de, através de outros expedientes, enxergar no escuro, curar-se de saudades amorosas ou até mesmo transmutar-se em colibri, o que evitam, claro, por não aspirarem nunca à extrema fragilidade destes pássaros-flor.
Embora as chuvas sejam diárias na floresta amazônica, não é sem razão que os pocovís se constituam monstros indissoluvelmente ligados à região de Lábrea, pois ali, inexplicável fenômeno climático, nem sempre chove, chegando a ocorrer até uma semana de contínuo estio. Vivessem onde as chuvas são abundantes, não cortaria o desassossego das noites o urro medonho dos pocovís e nem os perseguiriam os índios ávidos da pele de Tupã e da consequente imortalidade daí advinda. Frutos das vizinhanças de Lábrea e das margens arenosas do Purús, enfurnados nos escondidos da mais espessa floresta, os pocovís é como implorassem, do firmamento tempestuoso, uma forma esquiza de perdão.
Assim que cai o tororó medonho, silenciam os pocovís. Mas nem se queira saber da muda azáfama que fazem - os raros índios que alcançaram ver testemunham - a azáfama só de gestos, balé sem som que os pocovís empreendem - lambendo-se uns aos outros, as trombas inquietas; brincantes as soberbas orelhas de abano pensas da grossa cabeça; sem dor nem uivos, e o conforto de pele onde a carícia da chuva em grossas gotas contínuas esplende. Os kaxináuas, estes, retornam às malocas, mais uma vez derrotados pelo frusto intento de, espargindo a boa água do Purús na pele crestada dos pocovís, tocar a carne do Deus, e ganhar, de sobra, a eternidade.
Em Lábrea, registre-se, até os adultos saem às ruas para chapinhar as poças e comemorar as águas do céu.

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