Um novo modo de pronunciar MPB
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de abril de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Em Filá, música incluída no disco Cuzcuz Clã, Chico César conta que quando era um ilustre desconhecido costumava passear pelas ruas de São Paulo usando aquele bonezinho sem abas. E logo tinha um sujeito qualquer gritando Jimmi Cliff. Hoje, famoso e prestigiado como compositor, a coisa parece ter mudado de figura. Já não é mais simplesmente Francisco César Gonçalvez, 33 anos, disco novo em junho; tornou-se Chico César. Que antes de tornar uma celebridade da música exercia o jornalismo. Eu acho que hoje, quando Jimmi Cliff vier ao Brasil, as pessoas vão olhar para ele dizer: Chico César- disse ele brincando.
E foi com tiradas como essas que Chico César recebeu a imprensa, momentos antes de subir ao palco do anfiteatro do Zerão, no último dia 18, para abrir a programação artística da Mostra Regional de Teatro de Londrina /Filo. Lotou. Claro, não poderia ser diferente já que se trata de uma das mais cintilantes estrelas da nova geração de cantores e compositores da MPB.
No show, Chico apresentou algumas músicas do novo disco, que deverá ser lançado em junho, com o instigante nome de Beleza, Mano. O CD virá com 16 músicas, com previsão de três regravações - Onde Estará o Meu Amor, Feixe e Carinho de Carimbó registradas, respectivamente, por Maria Bethânia, Badi Assad e Jarbas Marins. É um disco mais urbano, que se dirige de certo modo a juventude das periferias- adiantou.
A seguir, os principais trechos da entrevista que Chico César concedeu à Folha2.
O primeiro disco foi só voz e o violão, o segundo veio com uma sonoridade mais pop. E o terceiro, como virá?
Chico César - Meu próximo disco será uma confirmação da diversidade do meu trabalho. É um disco mais urbano, que se dirige de certo modo à juventude das periferias. Ele tem bastante coisa dançante... Eu considero um disco denso em que estou usando mais violão de aço e pouco violão de nylon. É um disco em que as pessoas vão encontrar novidades. É um disco de um artista que se sente à vontade em trabalhar num esquema grande, num esquema de uma multinacional como é a Polygram. É, enfim, um disco de um artista que está amadurecendo em todas as viagens pra alguns cantos do Brasil e do mundo.
Você já está saindo daquela etapa de revelação. Ou seja, agora você é um compositor, um interessante compositor. Mas existe uma expectativa grande mais por parte da mídia, mais dos críticos do que propriamente do público. O que você acha dessa expectativa?
Chico César - Eu sinto essa expectativa no ar. Eu também tenho essa expectativa, não como compositor, mas como fazedor de disco. Fazer disco é combinar um processo artesanal com um processo tecnológico. Se você erra a mão numa coisa ou outra, ou melhor, se você tinha um objetivo com uma canção e não acerta o equilíbrio entre o artesanal - que é o colocar notas e cantar - e o tecnológico, você se frustra...
Você já está numa posição confortável na MPB?
Chico César - Não. Eu acho que a MPB não reserva de fato um lugar confortável a ninguém.
Mas você já foi gravado por importantes cantores, como Maria Bethânia. Isso já não é um grande aval?
Chico César - Mesmo assim eu acho que não. Isso só aumenta a reponsabilidade, a inquietação e a insônia.
Insônia?
Chico César - É porque... Poxa vida, fui gravado por Maria Bethânia, que tem um grau de exigência muito grande. Se ela confia em mim como compositor, se ela verbaliza isso não só para íntimos mas também para a imprensa, é sinal de que eu tenho uma grande responsabilidade. É uma confirmação dessa responsabilidade, então não acho que ninguém ocupa um lugar confortável. Por exemplo: eu li no avião um crítico que chama Quanta, o novo disco do Gil, de monocórdio e pretensioso. E é o Gil...
A crítica te incomoda?
Chico César - Eu leio tudo. E às vezes me preocupo porque de algum modo sou eu e o meu trabalho que estão aí provocando de algum modo uma conversa ou discussão.
Mas você vê as críticas com olhos de jornalista ou de músico?
Chico César - Eu vejo com olhos de pessoa, de cidadão. Mas eu acho que é preciso que a imprensa tome cuidado na hora de tratar com o que temos de melhor, que é a Música Popular Brasileira. Nós fazemos MPB melhor que fazemos sapatos, urutus, dentistas, modelos. O que melhor traduz a alma brasileira, a indústria cultural, é a música.
Mas a atual geração da MPB e eu te incluo - e não é uma crítica - parece apresentar a MPB com um estofo sonoro mais pop. Não existe uma preocupação, por exemplo, em se pegar coco ou embolada em transportá-la autenticamente. Você concorda comigo?
Chico César - Hum... Não sei. Acho que há um momento de convergência. Inclusive, acho que o pop está ficando MPB. Se você pega o Ed Motta, que era do funk, e que descobriu Tom Jobim e Guinga... é bacana. Mas para mim está havendo um movimento de convergência em que as pessoas estão se encontrando num elemento comum: a comunicação, no jeito de dizer do brasileiro. E o melhor jeito de comunicação, melhor até que a imprensa, é a música brasileira.
O timbre de sua voz, por vezes, lembra um pouco a de Caetano. Você já superou essa comparação?
Chico César - Acho que quem tem que superar não sou eu nem o Caetano; é o ouvinte que se remete a Caetano. Acho que quando tiver dez discos ninguém mais vai comparar.
No entanto, algumas pessoas o chamam de o novo Caetano Veloso.
Chico César - O Caetano já respondeu que o novo Caetano Veloso é ele mesmo. Eu sou Chico César, primeiro e único no meu jeito de fazer as coisas. Olha, eu acho que é necessário até pra você entender um fenômeno, compará-lo. Mas a comparação não pode resumir a compreensão do meu trabalho e o do trabalho de Caetano. Sim, porque se você se fecha nisso aí você não vai entender que tipo de colaboração e inovação o meu trabalho pode trazer.
Que mistério é esse de você ser gravado quase só por mulheres até agora? Sua música tem alguma coisa que só as mulheres alcançaram primeiro? Sua música é feminina, é isso?
Chico César - Tem homens também. Tem Papetti, Emílio Santiago, MPB-4 e Quinteto Violado. Os homens, quando gravam, costumam gravar em grupo...Talvez tenha algo na minha música que tenha a ver com o final do século, uma sutileza, um jeito de dizer, que não evita dizer, não foge do problema vai ao problema. E isso, talvez, seja algo feminino. Isso é uma hipótese. Talvez eu esteja chutando mas não deixa de ser uma hipótese. E que talvez até traduza bem essa aceitação entre as intérpretes mas também no público. Eu nunca imaginei, por exemplo, fazer shows com mocinhas de 16 anos gritando lindo, gostoso, maravilhoso, afrodisíaco. Gritam também senhoras que levaram meus discos para os namorados, os amantes, os filhos...
Em suma, sua música fala sutil ou diretamente às mulheres?
Chico César - Eu não as elegi, não as escolhi. Talvez passageiramente eu tenha sido escolhido por algumas delas.
Fama é bom?
Chico César - Fama? Ah... Não é um objetivo mas é bom. Não deixo de fazer o que eu gosto como ir à padaria, entrar num cabeleireiro barato e pedir para passar máquina zero, caminhar no parque...


