De novo Hollywood invade o túnel do tempo para contornar uma crise de criatividade que já vai se tornando crônica. As duas estréias simultâneas - ‘‘Shaft’’ e este ‘‘Endiabrado’’ - estão longe de configurar apenas uma coincidência na programação. Entre outros, são filmes representativos do momento de carência criativa que caracteriza o processo de desertificação da industria hollywoodiana. Se não há novas e boas idéias, novos e consistentes personagens, por que não fazer uma varredura na memória viva, vivíssima e partir para reciclagem, também conhecida como salvação da bilheteria ?
Do fundo do baú dos anos 60 sai agora esta nova versão de ‘‘Endiabrado’’ (veja a programação de cinema na página 4). O produtor Trevor Albert e o diretor Harold Ramis recorreram a um roteiro de Peter Cook e Dudley Moore (então comediante novato na TV britânica), filmado por Stanley Donen com o título de ‘‘Bedazzled’’, no Brasil lançado em 68 como ‘‘O Diabo é Meu Sócio’’. Segundo eles, ‘‘a história precisava ser atualizada, já que muita cultura passou desde então’’ (sic).
O tema é tradicional, já simplificado pela abordagem insistente e secular. Há sempre quem se disponha a vender a alma ao diabo se este pode dar, como se acredita, riqueza, poder e mulher. O novo Fausto desta versão fim de século é um consultor técnico com sérias dificuldades de relacionamento. Elliot (Brendan Fraser) está apaixonado pela colega de trabalho Alison (Frances O’Connor). O diabo, ou o Mefistófeles de plantão, é a estonteante Elizabeth Hurley (a diabinha dos fogosos anos 60 era Rachel Welch, então em arrepiante início de carreira). A Ellioto são concedidos e atendidos sete desejos. Mas as coisas não vão saindo como o idealizado, e é por aí, pelos equívocos, que Harold Ramis vai construindo sua comédia, evidentemente com conotações de fabulação moralizante - do tipo auto-ajuda, enfatizando princípios como ‘‘a felicidade não está naquilo que desejamos, mas naquilo que já temos e que pode nos deixar felizes’’.(C.E.L.J.)

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