Quem vê o malandro Tião em ''Cama de Gato'', não imagina que ele é exatamente o oposto de seu intérprete. Aílton Graça nasceu em uma família pobre, em São Paulo, e teve de trabalhar duro para conquistar seu espaço na televisão. Ele já foi camelô, carregou as sacolas das senhoras na feira em busca de um trocado e até foi fiscal de ônibus. Mas nunca deixou de lado o sonho de atuar. ''Se desistisse da minha meta, ficaria frustrado pelo resto da vida. Eu precisava me virar em dez e seguir em frente até conseguir. E foi o que fiz'', conta, orgulhoso.

Mas, na novela das seis da Globo, seu personagem só quer vida mansa. Gosta mesmo é de passar o tempo jogando sinuca no bar e se finge de doente para não trabalhar.


Você levou muito tempo para conseguir emplacar sua carreira como ator. Antes disso, trabalhou em várias profissões. Que lembranças você tem desse início?

Trabalhei em diversas áreas para pagar meu cursos de teatro. Fui ambulante, trabalhei na feira e também como fiscal de lotação. Sempre tive em mente o que queria e, por isso, batalhava como podia. Eu precisava ajudar em casa, me sustentar e estudar. Mas nunca desisti de ser ator. Todos esses trabalhos e bicos anteriores me deram a oportunidade de me conhecer e fizeram ser o que sou hoje. Graças a eles pude estudar, observar as pessoas e ter uma visão bem ampla do mundo ao meu redor.

Você atuou por anos no teatro e no cinema antes de estrear na tevê. Por quê?

Comecei no teatro em 1982, fazendo parte de um projeto dentro do hospital no qual eu trabalhava. Apresentávamos esquetes e textos teatrais onde o foco principal era dar um pouco de alegria, frescor e alívio para quem estava ali para se tratar.

Mas o reconhecimento do público só veio em 2003, com o Majestade, personagem do filme ''Carandiru''. Esse papel foi o mais marcante na sua carreira?

Fazer o Majestade foi maravilhoso.

Dois anos depois de ''Carandiru'' você estreou na tevê na pele do Feitosa, em ''América''. Como foi estrear em uma novela aos 41 anos de idade?

Consegui esse papel graças à repercussão de ''Carandiru''. Ele foi um papel muito especial dado a mim pela Glória Perez e foi muito divertido de fazer.

Esse papel teve tanta popularidade que a cantora Alcione chegou a chamá-lo ao palco durante um show ao cantar ''Meu Ébano''. Você esperava tanta repercussão numa estreia na tevê?

Foi incrível. ''Meu Ébano'' é uma música linda e fiquei emocionado ao ver Alcione interpretá-la. Mas a música não foi só para o Feitosa. Ela é para todos os negros de tirar o chapéu. Acho que estou incluído entre eles, não é?

Como você avalia sua trajetória profissional?

É, sem dúvida, uma trajetória de muita luta. Nadei muito contra a maré, matei um leão por dia para poder fazer o que gosto hoje. Por mais que estivesse em outros trabalhos, nunca deixei de estudar e de batalhar pelo que queria, pelo meu objetivo. Usava isso para me impulsionar, para fazer com que estudasse mais, conhecesse mais o meu ofício, que é o de ser ator.
Você acabou de rodar o filme ''Condomínio Jaqueline'', com direção de Roberto Moreira Roque. Como foi esse trabalho?

O Roque é um personagem muito especial. Ele é um homem simples, que observa com olhos de delicadeza o pequeno mundo que é esse condomínio, do qual faz parte. O diretor fez com que a gente se sentisse de fato dentro desse local, porque ele tem uma sensibilidade incrível na hora de conduzir os atores. Isso fez com que a história fosse uma extensão de nossa trajetória, então ficou mais suave contar algo às vezes melancólico ou triste. Mesmo as histórias mais alegres vêm carregadas de delicadeza.

Como você lida com o assédio do público, especialmente o feminino?

Não faço o tipo galã. Sou um homem comum, que tem uma vida comum.

Você sempre teve a sorte de contracenar com mulheres bonitas na tevê. Em ''Cama de Gato'', especificamente, seu personagem é ex-marido de Camila Pitanga e namorado de Emanuelle Araújo. Como você reagiu a essa escalação?

Sou presenteado por me colocarem ao lado de atrizes belíssimas. Isso acontece desde o Feitosa, que tinha duas mulheres, Creusa, de Juliana Paes, e Islene, feita por Paula Burlamaqui. Talvez alguém lá em cima goste muito de mim (risos).

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