UM NATAL ALTERNATIVO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 22 de dezembro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para a Folha 2 
É claro que uma mega-indústria de entretenimento como Hollywood tem tudo programado e previsto na ponta do mouse. Filmes com espírito natalino estão na mira das probabilidades tidas como irreversíveis no organograma desta reiterativa fábrica de ilusões. Não que as bençãos de Santa Claus recaiam sempre sobre as bilheterias de filmes sobre e para o Natal dos americanos - e por imperial extensão, dos espectadores de pólo a pólo. Na maioria das vezes, nesta época do ano o box office sorri para as atrações que se enquadram na categoria profana - Tubarão em 75, O Iluminado em 80, Caçadores de Arca Perdida em 81, apenas para citar três entre diversos outros campeões de renda na bolsa de apostas contra o bom-mocismo das fábulas edificantes. Não que elas sejam inteiramente ruins ou totalmente desnecessárias e descartáveis. Apenas é preciso resolvê-las vermelho no branco, como Esqueceram de Mim fez em 90: em pleno ritmo e temperatura de Natal, John Hughes realizou uma comédia familiar neurótica, uma espécie de jogo de gato e rato em chave de violencia light, a um só tempo aventura para crianças e adolescentes e metáfora bem planejada sobre o valor da propriedade privada no sistema capitalista. Uma boa estratégia esta, distribuir afagos a todos os segmentos de platéia, tudo reunido e compactado num único exemplar.
É o que tenta Um Homem de Família, em exibição a partir de hoje em circuito de capitais e maiores cidades do interior (veja a programação de cinema na página 4). O filme de Brett Ratner, que está sendo lançado simultaneamente nos Estados Unidos, é uma fantasia com ingredientes sólidos de comédia romântica - vale dizer, um mix apetitoso para ser servido quente durante a ceia da véspera. Nicolas Cage é um guerreiro de Wall Street, corretor bem sucedido, workaholic em grau elevado, solteirão convicto, morador de bela cobertura em Manhattan. Nas veias corre o sangue das blue ships. Um prólogo, em 87, apresenta Jack Campbell pouco antes dele embarcar para ficar um ano em Londres, onde tem interesse profissional num banco. O momento é crucial para Jack. A namorada dele, Kate (Tea Leoni), uma estudante de Direito, o adverte de que, se ele embarcar no vôo, o romance estará terminado para sempre. E é o que acontece.
Nos dias de hoje, Jack é uma locomotiva das bolsas. Não tem tempo para nada entre uma e outra transação. Nem quando a fiel secretária informa sobre o telefonema de uma quase esquecida Kate ele parece sensibilizado. Mesmo na véspera do Natal, novas perspectivas de lucro o impedem de entrar em divagações nostálgicas. Mas na manhã seguinte, Jack acorda num universo paralelo. Ele agora é um ser suburbano que mora modestamente em Nova Jersey, trabalha na loja de pneus do sogro, aliás o pai de Kate, com quem está casado, e tem dois filhos. Para Jake, que olha horrorizado seu guarda-roupa agora reduzido a panos amassados e uma mini-van no lugar da Ferrari, alguma coisa está muito errada. E também para a pequena Annie, a filha de seis anos que pensa que ele é um alienígena tomando o lugar do pai. Jake custa a acreditar que as evidências de sua outra vida foram deletadas, achando que tudo não passa de uma aberração temporária. Aos poucos, porém, a nova realidade vai se impondo, com a interferência de alguém que sabe o que Jack realmente quer, ou melhor, o que ele de fato precisa. A vida tem sempre planos para interferir na vida das pessoas, é o que parece contar esta história sobre truísmos e moralismos.
E aqui estamos em território de Frank Capra, o homem que dirigiu os filmes mais otimistas - e em consequência populares - da história do cinema. E Um Homem de Família remete especificamente a um deles, A Felicidade Não se Compra (Its a Wonderful Life), realizado em 1946 com James Stewart vivendo e sobrevivendo às atribulações parecidas com as que agora afligem Cage. A propósito do ator, de férias do purgatório em que se meteu com os muitos filmes de ação, sem dúvida este é o momento mais importante de sua carreira. Como Jack, ele está em cada cena, e no conjunto termina por oferecer uma performance sutil e modulada, capaz de manter sob controle qualquer excesso de sentimentalismo que volta e meio ronda o personagem. Tea Leoni é uma Kate tão perfeita que às vezes fica difícil compreender porque Jack acha a alternativa da segunda realidade tão sem atrativos.
Este é exatamente o tipo de fantasia adulta que as platéias gostam de ver no Natal. E é de fato um entretenimento agradável. Mas alguma coisa falta, e isto torna o The Family Man um filme menos satisfatório do que poderia ser. Há várias questões irresolvidas, sub-temas que surgem e não são esclarecidos. Para citar um apenas: o melhor amigo alternativo de Jack, interpretado por Jeremy Piven, desaparece a meio caminho da história. E estamos às voltas com uma conclusão que, embora esperançosa, dificilmente é o fecho emocional para cima que o filme parece necessitar.


