PERFIL -

Um músico sem fronteiras

Elio Orio, violinista italiano que esteve em Londrina, transita por vários países e defende um mundo sem passaportes

Natália Cordeiro/ Estagiária
Natália Cordeiro/ Estagiária

“Não precisamos disso” diz, me mostrando o passaporte, Elio Orio, violinista, solista e professor de música de câmara italiano que esteve em Londrina, onde se apresentou com a orquestra Bravi. Por conhecer a cultura de diversos países diferentes, passando para ensinar e tocar música, afirma que não deveria haver divisão entre os países. O processo para acessar cada um é diferente e, muitas vezes, dificultado. Italiano, passou pela China inúmeras vezes e por países como Estados Unidos, Portugal, Grécia e Eslováquia.




Orio nasceu em Fabriano, na Itália, e aos 11 anos teve sua iniciação na música. Depois de alguns anos de estudo na cidade natal, foi para Torino, onde estudou no Teatro Regio di Torino. Também passou por um quarteto de piano, violino, viola e violoncelo. Estudou didática, a história dos instrumentos e descobriu a paixão em ensinar. Há 25 passou em uma competição de professores nos conservatórios italianos e começou a lecionar. Atualmente, mora em Pádua e espera ser diretor do conservatório no ano que vem.






Veio ao Brasil pela primeira vez há seis anos. No conservatório, enquanto era diretor, tinha um aluno brasileiro, que é cantor. Esse aluno o convidou para um festival em Francisco Beltrão (PR), onde tem com sua família uma escola de música. Assim começou a relação de Orio com o Brasil: desde então, vem todos os anos, para participar de orquestras como solista e ensinar os músicos brasileiros. “É mais fácil mover um professor do que 30 alunos”, diz.




Em 2017 e 2018 foi convidado pela Unicesumar em Maringá para desempenhar as mesmas atividades. Quando viaja para o Brasil, toca com as orquestras e ensina viola e violino. Para ele, é como um laboratório de música, em que ele não apenas ensina, mas toca os instrumentos juntos com os alunos. “É a melhor maneira de melhorar, tocar com os alunos e ensiná-los”, afirma.




Orio esteve pela primeira vez em Londrina a convite da Bravi Academia Orquestral. No dia 15 de outubro deste ano, na Catedral Metropolitana de Londrina, apresentou “As Quatro Estações”, de Vivaldi, com a Orquestra Acadêmica da Bravi e também deu aulas para os alunos da escola. Mesmo quando toca Vivaldi em seu país natal, explica sobre os concertos para o público. “Vivaldi é sobre alegria, é relaxante. Explico que as pessoas podem sorrir”, diz. A apresentação em Londrina, para ele, foi maravilhosa. Ele afirma que prefere tocar com os músicos novos, os bons alunos, porque são mais interativos. O solista já está com planos de voltar à cidade. 




Apesar de Londrina ser a maior cidade que já visitou no Brasil, Elio afirma que os problemas são os mesmos: não existem muitos professores e, por isso, muitos jovens músicos vão para São Paulo ou Curitiba para estudar. “Mas nem todos podem, porque é caro, eles precisam de tempo e dinheiro e eles não têm tempo e dinheiro, porque trabalham e estudam”, diz.




Outro aspecto que percebeu sobre os músicos brasileiros é que começam a aprender “tarde demais”, aos 18, 19 anos. Segundo ele, às vezes é muito tarde ou difícil chegar no nível profissional: “Então eu tento incentivá-los a melhorar”.




Apesar disso, sente que aqui, existe um grande desejo de tocar e fazer atividades culturais. As pessoas são entusiásticas, mais do que nos outros países. “Existe grande vontade de fazer, mas o processo é dificultado.” Para Orio, esse desejo é a coisa mais importante.




Ele ressalta como seria importante um incentivo maior do governo para a música no Brasil, justamente pela falta de dinheiro, recursos, professores e instrumentos. Mas não é só aqui que existe essa necessidade: os alunos chineses têm problemas em ir à Europa por causa do visto e por problemas financeiros. “Na Europa, tempos o problema de dinheiro. Sou sortudo de estar na Itália, tenho quase tudo. Mas gostaria que todos os lugares tivessem a mesma oportunidade”, lamenta.  




“Toda vez que vou para a China, preciso pagar pelo visto. Esse é um grande problema. Em todo lugar vemos a mesma humanidade, em todos os lugares as pessoas querem ser felizes, todos querem comer, todos querem fazer sexo, eles querem as mesmas coisas que eu quero. A música é a melhor maneira de explicar aos governos que precisamos parar com as guerras, as divisões, a tensão. É um problema político, mas como músico eu consigo enxergá-lo.”




Uma academia em ação


A Bravi Academia Orquestral teve seu início em 2017 com o objetivo de suprir uma demanda de prática orquestral, que até então, não tinha em Londrina. Criada por Jhonatan Santos e Thalita Alcântara, a escola conta com três professores. Atualmente, a Bravi tem três grupos: Orquestra Acadêmica - mais avançada, com tutoria de Evgueni Ratchev -, grupos intermediários e a orquestra infanto juvenil, com mais de 60 alunos. Com esses grupos se apresentam pela cidade com uma série de concertos ao longo do ano. (N.C.)




* Supervisão: Célia Musilli
Editora da Folha 2


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