Um músico que foi um povo inteiro
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
Julio Maria e Renato Vieira<BR>Agência Estado 
São Paulo - Ao falar de Luiz Gonzaga, Gilberto Gil lacrimeja. "Cem anos de vida! Gonzaga está vivo e é por ele que eu estou aqui." A frase não tem sentido apenas ornamental. Se for destrinchada mesmo, a obra de Gil revela a estrutura gonzaguiana em todos os seus álbuns. Mesmo músicas que não estejam declaradas oficialmente como baião, xote ou xaxado, como Procissão ou Expresso 2222, têm estruturas retiradas de uma costela de Gonzaga.
Gil foi o nome mais importante na recuperação de Luiz Gonzaga quando a seca chegou ao sertão do baião, lá por 1965. A Tropicália iria reacender aquele candeeiro com um brilho talvez ainda maior do que nos anos 1950, tempos em que Luiz Gonzaga começou a ser reconhecido como artista de massas. Até sua sanfona virar acordeão, embora ele mesmo estivesse pouco ligando para isso, Gil, Caetano, Gal e toda a turma aceita da classe média para cima teria de referendá-lo com regravações de suas canções.
Se fez tudo instintivamente ou como um estrategista, difícil dizer. Mas um fato é que Luiz Gonzaga ficou maior do que a própria música que empunhou no dia em que, sozinho, passou a refletir a imagem de um povo inteiro. Asa Branca, tema popular que ele e o parceiro Humberto Teixeira colheram da terra para fazer virar hino, é tocada na sanfona pelos meninos de Exu que querem dar seus primeiros passos no instrumento. Acaso ou não, é toda feita por notas naturais, sem sustenidos ou bemóis, que só facilita a vida de quem toca os dois teclados e puxa o fole ao mesmo tempo.
O que seria do Nordeste sem Gonzaga? Sul e Sudeste teriam noção de sua cultura sem ele? Suas cidades, seus rios, sua comida, sua música. "Ele fez tudo, está tudo ali", diz Gil.
São três os troncos que cresceram da mesma raiz plantada pelo homem que criou o modelo de triângulo, zabumba e sanfona na música brasileira. Imediatamente após a sua aparição, pés de serra típicos como Dominguinhos e Trio Nordestino originaram a frente mais fiel às raízes, uma árvore que não para de dar frutos.
Já nos anos de 1970, uma nova geração, de Alceu Valença, Zé Ramalho e Novos Baianos, fez o espírito do baião se encontrar com o rock e com as tradições de outros cantos, como o choro e o samba, tirando o xote do sítio. E nos 90, uma turma de empresários habilidosos recrutou músicos com origem no forró para tornar o gênero comercialmente rentável e criar um modelo econômico lucrativo. A empreitada ganhou o nome jocoso de forró de plástico e passou a ser representada por bandas como Aviões do Forró e Mastruz com Leite. No fundo, tudo farinha de um mesmo saco.



