UM MÚSICO NO PLURAL
Paulo Moura e banda fazem homenagem a Cartola num show que acontece hoje, no Cabaré do Filo
Antônio Mariano Júnior
DivulgaçãoPaulo Moura: incursões competentes pelo erudito e popular em nome da boa música instrumentalHomenagem de bamba para bamba. De Paulo Moura para Cartola com carinho e, principalmente, acuidade sonora. No repertório, canções impecáveis (algumas bastante populares) de um dos gênios da MPB como ‘‘As Rosas Não Falam’’, ‘‘O Mundo é um Moinho’’, ‘‘Cordas de Aço’’, ‘‘Ensaboa’’, ‘‘Alvorada’’, entre outras. No palco, o excepcional Paulo Moura estará acompanhado de Macalé (vocal e violão), Paulinho Black (bateria), Fernando Ramos (piano) e Jamil Joanes (baixo). O show acontece hoje, à meia-noite, no último dia da maratona musical do Cabaré do Festival Internacional de Londrina.
O show que Paulo Moura traz a Londrina é o mesmo que está sendo apresentado há três semanas no Centro Cultural do Banco do Brasil, em São Paulo. Seria uma apresentação estritamente instrumental não fosse o violonista Macalé cantar uma ou outra música de Cartola. O foco dos holofotes, entretanto, estará convergendo em direção a Paulo Moura. E por razões óbvias.
Quando se fala em seu nome a reverência é profunda mesmo daqueles que conhecem superficialmente seu trabalho. Seja no erudito ou no popular, Paulo Moura parece imprimir sua marca registrada. ‘‘É possível que isso realmente aconteça porque ter estilo é importante. Eu estou sempre evitando fazer coisas que não gosto como repetir frases musicais conhecidas e clichês’’ - diz ele. ‘‘Uma de minhas preocupações é a elaboração do som, isso sim é importante’’ - complementa.
A escolha de Cartola se deve pelo fato de ele ser um compositor magnífico, um misto de artesão musical e letrista requintado. ‘‘Suas melodias têm vida própria ao ponto de não depender só das letras’’ - diz o músico atentando para um detalhe interessante: mesmo com toda brasilidade de sua música Cartola parece não ter-se colocado cego diante das influências musicais do exterior.
Em outras palavras, Moura é só elogios ao grande mestre da MPB. Todos os que têm um certo verniz cultural-musical reconhecem isso. Mas vindo de Paulo Moura até as palavras mais simples ganham dimensão singela. ‘‘É um prazer tocar as músicas de Cartola’’ - resume. Para executá-las escolheu o sax-soprano por entender que é o que melhor se adapta ao estilo de Cartola.
Maestro, solista de jazz, arranjador e instrumentista são alguns dos adjetivos profissionais que se pode ligar ao nome de Paulo Moura. É uma dessas figuras que para se classificar inevitavelmente se precisa recorrer a um clichê: a música sempre fez parte de sua vida. Também pudera, filho de mestre de banda, clarinetista e carpinteiro, começou a aprender piano aos nove anos e aos 13 já tocava em festas e bailes com o conjunto do pai, em São José do Rio Preto, onde nasceu.
Profissionalmente a coisa toda começou a engrenar com a mudança da família para o Rio de Janeiro. O primeiro passo foi ingressar, aos 17 anos, na Escola de Música. Dois anos depois, estreou como solista da Orquestra Sinfônica Brasileira. O lado erudito florescia, mas o popular não foi esquecido. Nessa mesma época passou a trabalhar também em orquestras de rádios e até mesmo em gafieiras.
Ou seja, o lado erudito e popular conviveram sem maiores problemas e dramas e normalmente acometem alguns músicos. Não há uma inclinação, um gosto maior por um dos estilos? ‘‘Essa é uma pergunta que me faço e não consigo resposta’’ - diz. Então tá!! Claro, suas influências são muitas. Uma delas, Charlie Parker, o criador do bebop. ‘‘Ouvi-lo me trouxe uma abertura muito grande porque ele revolucionou o estilo de se tocar sax alto; me deixou emocionado’’ - lembra.
Mas uma de suas referências é um brasileiro pouco conhecido: o saxofonista carioca Paschoal de Barros. ‘‘Ele era um mestre em adaptar os estilos alienígenas ao estilo brasileiro’’ - brinca Moura. Com mais de quarenta anos de carreira, hoje é Paulo Moura quem está na preferência - ou pelo menos no respeito - de grandes músicos do Brasil.
Não é para menos também. Moura sempre se mostrou solícito quando requisitado, seja qual fosse a praia musical desde que pudesse colocar sua competência. Compôs peças para orquestras sinfônicas, fez arranjos para grande medalhões da MPB (Elis Regina e Milton Nascimento, por exemplo) e participou como músico em discos memoráveis como o primeiro de Marisa Monte (o solo de ‘‘Negro Gato’’ é dele). Sua discografia é longa, mais de 20 discos. O mais recente ‘‘Pixinguinha - Paulo Moura e Os Batutas’’ abocanhou o Prêmio Sharp de 97 na categoria de melhor disco instrumental.
A Bossa Nova, um dos movimentos mais importantes da MPB, também contou com sua participação ativa embora poucos citem seu nome com a devida importância. Sobre o movimento, uma reclamação. Uma denúncia, aliás: houve discriminação racial. ‘‘Grande parte dos conjuntos de Bossa Nova não colocava músicos negros. Uma vez o Tom Jobim leu uma declaração minha no jornal e veio comentar comigo sobre isso. Ele disse que não era nada daquilo e que na sua banda atual havia negro. Bem, a não ser que ele considerasse o Danilo Caymmi (flautista, cantor e compositor) negro, havia’’ - ironiza.
Sua arte corre o mundo. Vira e mexe é convidado a participar de apresentações-solo ou em festivais em várias partes do mundo. No Brasil, seu trabalho como instrumentista é respeitado e coisa e tal mas ele reconhece que a falta de tradição de se ouvir música instrumental impede uma maior divulgação do estilo. ‘‘Nos EUA, por exemplo, a resposta do público ao som instrumental é muito grande e isso não acontece no Brasil’’ - constata.
Prêmios importantes, ele tem. Reconhecimento, sobra. Prestígio, idem. Agora, o mais bacana dessa história toda é que Paulo Moura é o que se pode chamar de um músico sem preconceitos. Sim, porque hoje ele está tocando Cartola, amanhã pode estar solando numa orquestra e num final de semana qualquer pode estar tocando numa gafieira. Tudo com a maior dignidade e profissionalismo. Quem é bom não escolhe palco.
• Show com Paulo Moura. Hoje, à meia-noite, no Cabaré do Festival Internacional de Londrina (Avenida Celso Garcia Cid, 1.419). Ingressos a R$ 10,00 (estudantes, idosos e funcionários da Universidade Estadual de Londrina pagam meia)

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