UM MÚSICO INCANSÁVEL
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quarta-feira, 19 de setembro de 2001
Claudio Dirani <br> Agência Estado 
Corria o ano de 1963. Bob Dylan, embalado por seu segundo LP, ''Freewhelin''', injetava adrenalina pura em artistas como Beatles, Jimi Hendrix, Eric Clapton, The Who, The Doors, Rolling Stones, Led Zeppelin, Guns N' Roses e outros fortes candidatos a lendas do rock.
Depois de ''Blowing in the Wind'', canção do mesmo disco, as letras começaram a ganhar importância entre os roqueiros. Foi mais uma virada radical que levou assinatura de Dylan, na época com apenas 22 anos. Com ''Love and Theft'' (Columbia), 43º álbum de sua carreira, lançado na terça-feira da semana passada, dia em que os americanos viveram o inferno de três violentos atos terroristas, o bardo Robert Zimmerman não vai decepcionar aos ouvintes do seminal ''Freewheelin'''.
Ainda que as chatas e intermináveis comparações com outros clássicos de sua autoria sejam inevitáveis, as 12 faixas de seu novo trabalho fazem jus e mantêm a qualidade do CD anterior, ''Time Out Of Mind'', que rendeu ao compositor três inesperados Grammy.
Já com respeitáveis e bem vividos 60 anos, Dylan já não consegue soltar o mesmo gogó - embora nunca tivesse aspirado ser um Sinatra. O tom nasalado e característico de sua voz já é coisa do passado. Em compensação, a qualidade das canções de ''Love And Theft'' superam este pequeno detalhe.
''Love And Theft'' não revoluciona, mas não pode ser mais um daqueles discos que você compra e esquece na estante, tomando banho de poeira. Na produção técnica, Jack Frost cuidou para que todo o trabalho ficasse a contento do criador. E nem poderia ser diferente, já que Frost é um dos pseudônimos de Dylan...
A banda - formada por amigos comuns de longa data - seguiu à risca as instruções do mestre caprichando em ''um som sexy, muito sexy, sem aplicar manobras exageradas'', revelou o percussionista Clay Meyers à revista americana ''Rolling Stone''.
Larry Campbell (guitarra, banjo, violino), Charlie Sexton (guitarra), Tony Garnier (baixo), David Kemper (bateria), Angie (órgão) e Clay Meyers (percussão) trataram de dosar seus talentos para que ''Love And Theft'' não tivesse gordura e outros excessos. Tudo foi gravado, mixado e masterizado em apenas duas semanas. O tema universal de amor e dor de cotovelo (ou ''roubo'', como sugere o título do CD) acompanhou a maioria das canções do álbum. Destaque para ''Highwater'', ''Floater'', ''Summer Days'' e ''Mississipi'' - uma releitura da versão incluída em ''Out Of Mind'', só que mais crua e quente do que a original.
As demais composições, que segundo o autor não podem ser relacionadas a acontecimentos particulares, seguem o conceito básico de ''made-up on the spot'' (improvisadas na hora). São elas: ''Tweedle Dee & Tweedle Dum'', ''Bye and Bye'', ''Po' Boy'', ''Cry A While'', ''Lonesome Day Blues'', ''Moonlight'' e ''Sugar Baby''.
Motivado pelo recente Oscar de melhor canção por ''Things Have Changed'' (não incluída em ''Love And Theft''), tema principal do filme ''Garotos Incríveis'', Bob Dylan completou seu disco com muita sede de voltar à estrada. A partir de 5 de outubro, os abalados fãs norte-americanos poderão conferir às novinhas de ''Love And Thieft'', e também aos clássicos dylanescos, ao vivo e em cores. Pelo menos até segunda ordem, já que os shows continuam agendados.
Com fama de poeta e visionário, Dylan só não calculava que o dia oficial de lançamento de seu álbum pudesse cair em uma data tão trágica para seu país. O dia 11 de setembro serviu só para comprovar que o mundo está mais para ''Things Have Changed'', (As Coisas Mudaram), de 2000, do que para ''Times They-are-A-Changing'' (Tempos Estão Mudando), de 1964, quando milhões de jovens espalhados pelo planeta ainda acreditavam na inocência e tinham inspiração para construir um mundo melhor.


