Ambição é o que não falta a esta vertiginosa extravagância escolhida especialmente para a abertura oficial da mostra competitiva do Festival de Cannes, em maio deste ano. ''Moulin Rouge - Amor em Vermelho'', em lançamento nacional nas principais cidades brasileiras (veja a programação de cinema na página 5), é uma superprodução musical, um megaespetáculo que custou a Fox mais de 50 milhões de dólares e cerca de quatro anos de trabalho ao visionário diretor australiano Baz Luhrmann, 38 anos, que já havia incomodado muita gente quando realizou as duas primeiras partes da trilogia que batizou como ''cinema de cortina vermelha'' (red courtain cinema), ''Vem Dançar Comigo'' em 92 e ''Romeu + Julieta'' em 96.
Neste filme ambientado na boêmia de Montmartre em 1899, Luhrmann volta a fazer pouco caso das tradições e cria um multifacetado patchwork visual em que o can-can convencional desfila de mãos dadas com a música eletrônica e o drama romântico entre um escritor inglês e uma bela cortesã, ainda com espaço suficiente para a comédia de situações e amenidades. A trama foi livremente baseada no mito de Orfeu, em como é possível afrontar os próprios medos. No célebre clube noturno, antro de decadência parisiense, a estrela Satine (Nicole Kidman) cai de amores pelo jovem literato (Ewan McGregor), mas está também ligada a um homem sinistro, o duque de Monroth (Richard Roxburgh), obcecado pela posse da mulher.
Os números musicais, rodados com impressionante aparato formal, múltiplos efeitos visuais e com até 650 dançarinos em algumas sequências, mostram uma extraordinária Nicole Kidman que presta homenagens diversas, desde Rita Hayworth em ''Gilda'' até Madonna, passando por Marlene Dietrich, Greta Garbo, Joan Crawford e Liza Minelli. Mas apesar dessas citações, pouco de clássico tem este filme que por momentos está mais próximo dos musicais de Jacques Demy e em outros está evidentemente mais interessado em seduzir o público jovem da MTV. Luhrmann consegue também que seus atores secundários (John Leguizamo como Toulouse Lautrec e Jim Broadbent) ofereçam atuações convincentes.
''Moulin Rouge'' conta sua história - que praticamente nada tem a ver com o filme homônimo de John Huston ou com a obra-prima de Jean Renoir - através de versões modernas de classicões do rock e do pop, alguns anacronismos devidamente recauchutados. Assim, desfilam canções de Sting, U2, Elton John, Madonna, Dolly Parton, David Bowie e Lennon & McCartney. Num dos segmentos mais arriscados, o tema ''Roxane'' se ouve em ritmo de tango. A cena, ambientada nos bordéis de Buenos Aires, termina em um trágico baile com uma multidão de dançarinos e com autêntica musica portenha de fundo.
Cada vez mais raros nos dias de hoje, os musicais têm chegado às telas a partir de estranhas procedências e emplacado por caminhos insuspeitados - ''Dançando no Escuro'', também revelado via Cannes, é o outro exemplo recente. No caso de ''Moulin Rouge'', o que se pode deplorar é uma segunda metade em que o filme perde em brilho, leveza e picardia, em nome de maior e pesado reforço de dramaticidade. Mas a exuberância do todo acaba reequilibrando o resultado. E uma boa surpresa são as vozes de Nicole e McGregor, melhor ainda a dele.

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