Aprender a enxergar beleza muitas vezes em um ambiente que só remete à violência fez parte do exercício estético que dezenas de crianças e jovens de 8 a 17 anos da Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, participaram há dois anos e que acabou resultando na instalação "O Muro", que estreia hoje no Museu Oscar Niemeyer (MON), em Curitiba, e que poderá ser visitada até o dia 29 de junho. A exposição já esteve em cartaz no Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Depois de Curitiba, segue para outras capitais. A mostra tem o patrocínio do Laboratório Farmoquímica (FQM) e apoio do Ministério da Cultura via Lei Estadual de Incentivo à Cultura do Rio de Janeiro.
Idealizada pelo artista plástico e arte-educador Helio Rodrigues, a exposição leva o espectador a ver o mundo pelo olhar de quem convive com a ameça constante da vida e enfrenta uma série de dificuldades para construir a própria identidade desde a infância. "A instalação é fruto do projeto 'Eu Sou' que vem sendo desenvolvido há dez anos com o objetivo de usar a arte com ferramenta para essas pessoas descobrirem suas subjetividades, os seus potenciais, e que não seja o de seguir o caminho da criminalidade", explica Rodrigues, que atualmente coordena o projeto social com 280 jovens, que para participar do curso de arte uma vez por semana devem frequentar a escola regular.
Em uma das aulas, a partir da discussão sobre a realidade das crianças e jovens moradores da favela, surgiu a ideia de fazer uma trabalho de campo em que eles, em companhia dos professores, pudessem registrar com máquinas digitais detalhes do cotidiano deles. "De repente, nos deparamos com uma visão bastante negativa do ambiente de origem deles, como não pudessem conseguir ver algo de positivo nem dentro deles mesmos. É claro que não é possível negar a realidade difícil, com o lixo a céu aberto, drogas, violência, mas também era preciso ampliar esse olhar, motivar outras formas de interpretação, levar a um recorte estético em que o 'fotógrafo' tivesse condições de exercitar essa observação, indo além do bonito versus feio", destaca o artista.
No muro com 6 metros de comprimento e 2,5 metros de altura confeccionado com 80 blocos de compensado – os "tijolos" - é possível visualizar imagens dos olhos dos 80 participantes do projeto. E como se fosse possível ver pela íris do olho de quem fez a fotografia, o espectador é levado a se aproximar de cada pequeno orifício feito em cada um dos olhos para dentro dele enxergar a imagem captada por aquela criança ou jovem. Para facilitar a visualização das imagens que estão no alto, banquinhos são disponibilizados para o público.
"A ideia era causar aquele efeito dos antigos monóculos, aquelas pequenas câmaras escuras usadas antigamente em que era possível ver fotografias de lembrança de algum lugar...", diz Rodrigues. "E nosso trabalho visa provocar uma reflexão sobre a importância de transpormos o 'muro social' entre a sociedade constituída e sociedade informal. A diversidade é fundamental para a arte e acredito que é possível modificar a representação da vida dessas pessoas pela arte", avalia o artista, que realizará um workshop gratuito, no dia 8 de abril, destinado a profissionais da área educacional e terapêutica, pais e pessoas acima de 18 anos.

Serviço:
Exposição fotográfica interativa "O Muro"
Quando – Abertura hoje, às 11 horas. Visitações até o dia 8 de junho
Onde - Museu Oscar Niemeyer (R. Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico), em Curitiba
Quanto – A abertura é gratuita

Imagem ilustrativa da imagem Um ‘Muro’ cheio de vida
| Foto: Felipe Castilhos



Workshop "O Muro" com Helio Rodrigues
Quando – Terça-feira (08/04), das 16h às 18h
Onde - Espaço da Ação Educativa (R. Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico), em Curitiba
Quanto – Gratuito, com inscrições feitas antecipadamente
Inscrições – (41) 3350-4412 (vagas limitadas)

Imagem ilustrativa da imagem Um ‘Muro’ cheio de vida
| Foto: Ana Cecília Brignol/ Divulgação



Período expositivo – De 05 de abril a 08 de junho
Quando – De terça a domingo, das 10h às 18h
Ingressos – R$ 6 e R$ 3 (meia-entrada para professores e estudantes com identificação)
Entrada gratuita - No primeiro domingo de cada mês, das 10 às 18 horas, e na primeira quinta-feira de cada mês, entre 18h e 20h

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