UM MUNDO DE SONS
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quarta-feira, 24 de outubro de 2001
Nelson Sato<br> De Londrina 
Os puristas já nem ligam. Sabem que, de jazz, só vão encontrar migalhas nos palcos do Free Jazz Festival. A 16ª edição da mais prestigiosa jornada musical anual do país começa hoje no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e inaugura sua extensão amanhã no Jockey Club de São Paulo.
A programação mantém a diversidade dos últimos anos reunindo bandas de rock/pop alternativas, representantes da música eletrônica e uns poucos notáveis do improviso instrumental. O canal pago Multishow vai transmitir os shows ao vivo a partir de 21h30. Como nas edições anteriores, os artistas estarão espalhados por três palcos distintos, cada um reservado a um tipo de corrente musical: Main Stage para as grandes estrelas, Club para os jazzistas e New Directions para as novas tendências.
A partir de 23 horas, o New Directions transforma-se no Palco Cream, que é a a principal novidade dessa edição. Cream foi criado exclusivamente para abrigar o povo das pistas inserindo a cultura clubber no evento. O nome se justifica com a vinda de 13 DJs da casa noturna homônima de Liverpool (Inglaterra), agora globalizada.
Entre as atrações mais aguardadas desse ano figuram o grupo escocês Belle and Sebastian, a cantora norte-americana Macy Gray, o mago das pick-ups inglês Fatboy Slim, a banda islandesa Sigur Rós, o experimentalista Aphex Twin e o projeto Roni Size Reprazent.
Para os jazzófilos, as maiores expectativas estão voltadas para as apresentações do baterista Chico Hamilton (que completou 80 anos no último domingo) e dos saxofonistas Phil Woods e Benny Golson. O primeiro já emprestou suas pulsações rítmicas para grupos de Count Basie, Lionel Hampton e Lena Horne. No Festival, ele vem acompanhado pela banda Euphoria, formada por músicos jovens.
Woods, 69 anos, começou tocando na orquestra Dizzy Gillespie. Virtuose, mantém viva a linguagem do bebop e do jazz moderno. Benny Golson, 72 anos, por sua vez, projetou seu sopro nas formações de Dizzy Gillespie e Art Blakey - a quem, com seu sexteto, homenageia no Festival. Seu concerto foi o primeiro do Palco Club a ter os ingressos esgotados.
Nessa ala, o elenco sofreu uma baixa de última hora: o acordeonista Art Van Damme cancelou suas apresentações por conta de um infarte sofrido na segunda-feira. O guitarrista norte-americano Pat Martino virá em seu lugar. É a turma pop, porém, que detém a primazia na programação.
O reino é dos eletrônicos, mas os indies também foram satisforiamente contemplados, ainda que com representantes menos ruidosos do que no ano passado. Diferente do Sonic Youth, a grande atração de 2000, as bandas mais esperadas do Palco Main Stage pouco apelam para os pedais de distorção preferindo dedilhar as cordas para extrair timbres acústicos e celestiais.
No primeiro caso, encaixa-se o Belle and Sebastian com seu folk pop melancólico. Já no segundo, nenhum outro grupo explora hoje as sonoridades atmosféricas como o islandês Sigur Rós, definido por alguns como neo-progressivo. Ambos tocam nas noites inaugurais, hoje no Rio e amanhã em São Paulo.
A cantora norte-americana Macy Gray é outro destaque do Main Stage. Chega ao Brasil um mês depois de lançar o álbum ''The Id'', o segundo de sua carreira. É uma das expoentes da atual black music, diferenciando-se das intérpretes soul açucaradas e seguindo a linhagem da voz rouca e áspera celebrizada por Billie Holiday.
Já entre os eletrônicos, o Free Jazz trouxe quase a nata das estrelas internacionais. A começar pelo inglês Fatboy Slim, nome artístico de Norman Cook, aclamado como o grande nome do big beat, vertente que mescla batidas pesadas e quebradas com elementos de rock. Não fica atrás em prestígio, o projeto Roni Size Reprazent, de Bristol (Inglaterra).
Trata-se de uma equipe de DJs, produtores e músicos de jungle/drum'n'bass. O grupo já veio em outras três temporadas ao Brasil, mas nunca completo. Desta vez, vem a turma toda incluindo os DJs Roni Size e Krust, o contrabaixista Si John e a elogiada cantora Onallee. A apresentação no Festival será calcada no repertório do álbum mais recente, ''In the Mode'' (2000), que traz influências de rap.
Completando o trio estelar dançante, chega pela primeira vez ao país o esquisitaço DJ e produtor britânico Richard D. James, mais conhecido como Aphex Twin. Seu show está sendo aguardado como o mais ''vanguardeiro'' do Free Jazz - desse show, aliás, deveria participar o videomaker Chris Cunninghan, que acabou desistindo com medo de embarcar em avião por causa dos recentees atentados terroristas.
Aphex Twin acaba de lançar o CD duplo ''Drukqs''. Suas influências vão de Stockhausen à Kraftwerk e Pink Floyd. Para muitos, ele foi o responsável pela expansão das fronteiras do techno nos anos 90 nutrindo-o com elementos de acid-thrash, ambient-noise e industrial drum-and-bass. O sujeito chama a atenção. Para os que assistirão ao Festival pela TV, o canal Multishow vai mostrar seu show amanhã a partir de 22 horas.
Esse Free Jazz é o que reuniu o maior número de participantes desde sua criação, em 1985. Ao todo, serão 37 atrações apresentando-se de hoje a domingo no Rio e em São Paulo. A má notícia é que poderá ser sua penúltima edição, já que a empresa Souza Cruz encerrará o contrato de patrocínio no próximo ano. O motivo são as leis antitabagistas previstas para entrar em vigor em 2003 proibindo a associação de eventos culturais a marcas de cigarros.


