São 15 longas-metragens em quatro décadas de carreira. Carlão Reichenbach, salvo raríssimos tropeços, como o mal resolvido ''Bens Confiscados'', de 2005, segue firme em sua trajetória de construir em imagens um universo de proletários, melhor dizendo, proletárias, trabalhadoras urbanas de baixa renda. Este ''Falsa Loura'' que chega hoje à sala alternativa da cidade (veja a programação de cinema na página 2) é o fecho de uma trilogia não exatamente planejada sobre mulheres operárias-sonhadoras que transitam na periferia da megalópole - ''Anjos do Arrabalde'' (1986) e ''Garotas do ABC'' (2003) completam este quadro.
O cinema de Reichenbach é simples e vai direto ao ponto, o que não significa que é simplório. Em resumo, a personagem Silmara (a bela Rosane Mulholland), filha de ex-presidiário, tenta transitar em seu estrato social ladeira acima, percorrendo com desembaraço (é bonita, desejável, inteligente, de forte personalidade, quase uma heroína) uma trajetória pontilhada por obstáculos e contradições, e que inevitavelmente vão levá-la a erros de avaliação. No caminho percorrido, máscaras e clichês, duas relações com dois cantores, um de banda pretensiosa, outro na trilha brega.
Honesto como de hábito, cultor da forma simples, da câmera despojada mas sempre generosa, Reichenbach não está nem muito aí se algumas coisas parecem estar fora do eixo em seus trabalhos. Como quase sempre, seus filmes (e ''Falsa Loura'' não é exceção) prestam homenagem a um certo cinema social que tem nome, sobrenome e domicílio conhecidos: influencia confessa, o universo melancólico dos dilemas humanos proposto pelo diretor italiano Valério Zurlini nos anos 1960 é a praia deste gaúcho radicado em São Paulo. Uma vez mais Carlão coloca um novo e valioso comentário em seu discurso ético e desglamourizado.(C.E.L.J.)

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