Curitiba - A indústria cultural foi abalada com a popularização dos computadores. Hoje, a arte não é mais apenas comandada pelas grandes empresas. Qualquer artista pode intervir no mercado, graças a programas de softwares que facilitaram a vida dos marginalizados do processo cultural.
Facções que nunca tiveram acesso à mídia conseguiram deixar os porões.
A democratização demorou, mas agora que chegou, abalou com todas as estruturas. Curitiba tem um grupo de jovens que está tirando proveito das facilidades do mundo moderno. Se auto-denominaram de Vitoriamario e assumiram que o movimento defende o acesso livre e a desregulamentação da linguagem artística, que inclui além da música, imagem, teatro, poesia e literatura.
A ousadia e a proposta do núcleo são manifestadas na apresentação da trupe: ‘‘não existem gênios - não existe ciência - não existe arte, só existe consumo’’. O Vitoriamario pretende lançar CDs de bandas com propostas alternativas, realizar mostras cinematográficas e criar um núcleo de produção de textos.
O embrião do agito foi o término da banda de ska, Boi Mamão, há quase três anos. O vocalista Glerm fundou com o baixista Lúcio o Malditos Ácaros do Microcosmos. A intenção da dupla era retomar suas raízes experimentalistas, influenciadas pela vanguarda jazzística (John Zorn) e o noise japonês (de grupos como Boredumps, considerada a Sonic Youth japonesa).
O que era para ser apenas uma banda alternativa acabou se tornando um projeto, com os tentáculos indo além da música formal. No ano passado os integrantes do grupo Malditos se envolveram com uma ópera noise, apresentado no Festival de Teatro de Curitiba, um dos maiores do gênero do País. O trabalho só evoluiu com a cumplicidade de alguns amigos, que se envolveram diretamente na encenação.
‘‘Nosso envolvimento com a cena artística nos estimulou a continuar. No início estávamos restritos aos guetos (como o Café Beatnick e o 92 Degrees, em Curitiba) e casas alternativas de shows em São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. Hoje nosso interesse é não impor limites para o que é arte e o que não 钒, explicou Germ, um dos cabeças do Vitoriamario.
Para fugir da indústria cultural e buscar uma estética sem limites foi fundado o Rádio Macumba. Essa banda procura fazer o acasalamento da música pop com o experimental. O anarquismo sonoro do Malditos ficou em outro plano. Germ confessa que o Rádio está interessado na poesia. ‘‘É uma ambição diferente. Queremos registrar o trabalho, escutá-lo, ver as pessoas cantando e ouvir um elogio merecido’’.
Despreocupados com dinheiro, os registros são feitos artesanalmente e editados conforme a necessidade. Mas isso não quer dizer que o produto artesanal tenha qualidade inferior. ‘‘É importante essa discussão do que é ou não é caseiro. Para nós é fugir do padrão. Não queremos usar o compressor da moda ou o limitador que custa uma fortuna’’.
Essa estética é uma oposição às diretrizes das grandes gravadoras. Glerm esteve em uma ‘‘label’’ com o Boi Mamão. No período ele aprendeu a conviver e odiar o sistemão. ‘‘As gravadoras colocam certas restrições ao seu processo criativo. Além de você ter que comprar o CD para dar a um amigo, você assina um contrato e ganha uma quantia irrisória. Aqui no Brasil quem ganha em direitos é o Roberto Carlos’’.
Essa declaração explica a idéia central do movimento, impresso no primeiro CD do Rádio. ‘‘Este produto é antidireitos autorais. Copie, remixe, sampleie e distribua livremente. Destrua esta indústria fonográfica exploradora’’. Para provar a ideologia livre, eles convidam os internautas para aderirem ao movimento através do portal www.vitoriamario.cjb.net.
No site existem links para as bandas Malditos Ácaros e Rádio Macumba; o Cine-Olho, projeto de produção cinematográfica, que também leva mostras para sociedades carentes; Rituais Eletro-Acústicos, no qual qualquer um pode participar com intervenções musicais on-line, e textos, que inclui roteiros cinematográficos, peças teatrais e manifestos.

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