Wilmar Klein
De Curitiba
Especial para a Folha2
No dia 31 de dezembro de 1996, aos 34 anos recém-completados, morria o poeta, compositor, ator e jornalista curitibano Marcos Prado.
- ‘‘...um grande poeta, um grande letrista, um grande amigo e um grande imbecil’’, escreveu na época o jornalista Luiz Clááudio Oliveira, da Folha. ‘‘Assim como começou cedo, participando de seu primeiro livro aos 17 anos, também morreu cedo, graças a complicações causadas pela bebida e pelas drogas. Em 18 anos de atividades literáárias, publicou 17 livros’’ - a maioria deles em parceria com outros poetas. Um escritor gregário. Portanto, que homenagem mais adequada, melhor retrato (ou - como proponho aqui - um mosaico) do que aqueles fornecidos por seus parceiros, amigos, pessoas que o conheceram bem, sentaram à mesma mesa, dividiram o mesmo cenáário e - não raro - o mesmo copo?
‘‘Qualquer um com um pouco de cérebro logo ficava amigo dele. Era criativo para escrever, mas foi estúpido para morrer jovem e cheio de sofrimentos. Foi derrotado pela bebida. Perdeu para o áálcool a oportunidade de ser um dos grandes poetas do País. Como consolo, será para sempre um dos poetas malditos de Curitiba. Acha que isso é pouco?’’
Conheci Marcos Prado em seus últimos anos de vida. E tudo o que lembro dele, não sei por meio de qual ‘‘ginástica’’á mental, torção do punhal da memória, anamnese, é: aquele sujeito de trench coat, chapéu, luvas (usava-as por conta de uma feia afecção de pele, sequela do alcoolismo); é um fim de tarde de verão, as janelas do bar - mesas toscas, compridas - estão abertas, sol entrando, mas láá dentro reina a penumbra. Troco algumas palavras com o Marcos, empresto-lhe um exemplar dos ‘‘Quatro Quartetos’’, de Eliot... Que mais?... Era a enésima dose de vodca do poeta. Nos meses que lhe restaram, as enésimas-primeiras, enésimas-segundas doses colaboraram para matáá-lo. Ou foi overdose de poesia? Deixemos que outras vozes se agreguem a este mosaico em construção:
‘‘Estranho. Muito estranho. Faz exatamente 3 anos que eu não vejo. E nem escuto barbaridades daquele monstro. Lembro que a gente se encontrava quase todos os dias e que, nesses encontros, fizemos algumas centenas de músicas, poemas, embromações, piadas, chistes, pilhérias, avacalhações, sacrilégios, enfim, verdadeiras obras-primas, cláássicos do futuro. O Marcos Prado tinha técnica de fazer inveja a um Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, Paulo Leminski. E quem mais mesmo? A gente sentava em um bar qualquer. Não levava muito tempo, éramos cercados de amigos, inimigos, curiosos e outros seres indefinidos. Não raro, amanhecíamos recitando, cantando, bebendo e fumando até estourar a caixa torááxica. De repente, inexplicavelmente, o lazarento sai de cena e desaparece. Foi pra onde? Fazer o que? Háá controvérsias, uns dizem que se mudou pro Água Verde, outros, afirmam que ele vive como um dândi ao lado do rei de Pasáárgada. Eu não sei. A saudade de Antonio Thadeu Wojciechowski’’ (poeta, compositor e publicitáário).
‘‘Marcos Prado proibiu-se o provincianismo e procurou não se deixar colonizar culturalmente. Seu compromisso com a beleza exigiu sempre a experimentação do limite, a exposição à fronteira, o risco. Reconciliou-nos, não obstante, com os cláássicos e com o verso metrificado.
O discurso poéático por ele exercitado costuma apresentar-se tosco, como se mal acabado, como se à margem de convenções de decoro, como se liberto do literáário. Uma linha rimbaudiana de superação e recusa, de não conivência, de não submissão, vem à revelação, distanciada da poesia que se quer flor da sociedade.
A estética do grafito - com seu despojamento, suas soluções formais despretensiosas, seu descompromissamento, sua incursão pelo domínio do interdito - delineia no trabalho de Marcos Prado uma nuance underground na qual se vá ressoar o acento beat divulgado a partir dos Estados Unidos nos anos 50. A sordidez faz-se, com o poeta, linguagem e beleza.’’ - Edison José da Costa (professor da UFPR).
‘‘Na poesia de Marcos Prado, a ironia e até o deboche, a partir de cenas corriqueiras do cotidiano, estão muito presentes. Nesse tipo de postura, a ausência da poética filosofal dessacraliza o ato poético, aproximando-o bastante da vida comum diária de cada um e de todos, sem assumir a dicção social mais ampla e provocando até o riso que zomba de nossas pequenas mazelas. A oralidade é fluente, quase uma letra de música popular ou a fala de um diáálogo inconcluso, no meio de um dia de trabalho. O cotidiano aflora com as lentes da ironia e do deboche...’’ - Reinoldo Atem (professor, poeta e publicitáário).
‘‘Marcos Prado e sua linguagem feita de navalhadas. Palavras-talhos: ráápidos, profundos, hemorráágicos, futuras cicatrizes. Certas vezes bisturi preciso e precioso, tantas outras falastrão facão de cego bêbado em briga de foice no escuro, talhando a torto e à direita. Cego no escuro, certo é que cortava, sempre. E não dava dois talhos onde podia dar um’’- Alberto Centurião (poeta, ator e teatrólogo).
‘‘Conheci Marcos quando, com 15 anos de idade, estudáávamos no Colégio Estadual. Me chamava a atenção aquele rapaz trocando informações com os professores de literatura na escola de arte. Fazer música foi facílimo. Às vezes ele trazia letra e música jáá prontas. Muitos de seus poemas, ao meu ver, foram feitos para mim e por mim’’- Walmor Góes (instrumentista, vocalista e compositor).
Brincando pelos prados do Senhor
‘‘Fala Galope, Vem Coice, Voa Crina.
O Vento Venta Além.
Aqui o Dia Jáá Vai, Mas Sai o Sol Láá na China.
Anoitece o Ano Novo.
Cai um Prado na Campina.’’ - Roberto Prado (poeta, compositor, publicitáário, irmão de Marcos).

Inéditos do poeta
Tantos que, dentre aqueles com que me deparei, não sabia quais deveria escolher. Na impossibilidade de publicar todos eles, embaralhei as folhas impressas e o acaso escolheu os poemas aqui transcritos. (WK)

begônias silvestres
o sumiço da sua silhueta amiga
fez meu perfil baixar a cabeça
as cores da tarde, cinzas cinzas
as luzes da noite, negras negras
desaparecer não é pra qualquer um
sà você, misto de mistério e de vida
pode estar em lugar nenhum
e ainda me tocar, por música
não escreve aqui quem sabe de tudo
o que você quer, o que você sabe, nada
apenas quero daquele que é mudo
dizer o que acha dessa palhaçada
o ritmo vale mais que a métrica e a rima
pois a métrica é salão e a rima cozinha
tudo que a inteligência dizima
é fato a mim e idéia de fato minha
você, que é devorador da comida alheia
que se serve do talento de outro prato
preste atenção: seu sangue não vai mudar de veia
se você não criar pra você um novo braço
assim que eu deixei de te querer, minha vida
de uma hora para outra, puro acaso,
fui olhar a flor e só havia vaso
a de pláástico olhei e derretida
a verdade é que errei em tudo mesmo
mentira dizer que fui feliz um dia
se até agora cheguei a um bom termo
foi pelos olhos de quem me amou um dia.

A obra
Marcos Prado publicou: ‘‘De leve não vale a pena apesar’’ (1979), ‘‘O livro dos Contráários’’ (1995), ‘‘O livro de poemas de Marcos Prado’’ (1996). Coletâneas: ‘‘Sala 17’’ (1978), ‘‘Reis magros’’ (1979), ‘‘Sangra: Cio’’ (1980), ‘‘Feiticeiro Inventor’’ (1985) e ‘‘Outras praias Other shores’’ (1998, edição bilíngue). Livros com poemas em parceria: ‘‘Dois mais dois são três em um’’, ‘‘Pérolas aos poukos’’, ‘‘Erdeiros do azar’’, ‘‘Paraguayos do universo’’, ‘‘Passei minha mão na cara’’, ‘‘Eu, aliáás, nós’’ e ‘‘Três quadrúpedes bípedes’’ (este último em parceria com Máárcio ‘‘Cobaia’’ Goedert e Edson de Vulcanis). Traduziu, com Roberto Prado, Antonio Thadeu Wojciechowski, Sérgio Viralobos e Edilson Del Grossi: ‘‘O Corvo’’, de Edgar Allan Poe (1985), ‘‘Os Catalépticos’’ (1991), com traduções de Dante Alighieri, Yeats, Rimbaud, Baudelaire, Camões, Edgar Allan Poe, Adam Mickiewicz e Shakespeare. Composições gravadas pelo grupo Beijo AA Força nos discos ‘‘Que quer o Brasil que me persegue’’ (1990), ‘‘Música ligeira nos países baixos’’ (1993), ‘‘Sem suingue’’ (1996) e ‘‘Barbabel’’ (1999), pelo grupo Os Cervejas (‘‘Os Cervejas, 1994) e Láábia Pop (‘‘Carta ao ídolo’’, 1991) e com Tatáára (‘‘Jogo de Espelhos’’, 1979), nas coletâneas ‘‘Cemitério de Elefantes’’ (diversos, 1990), ‘‘Vampiros de Curitiba’’ (diversos, 1991), ‘‘1’’ (diversos, 1994), ‘‘Network, Vol. 1’’ (Sheffield, Inglaterra, 1993).
Tem composições no repertório de váários músicos, entre eles: Beto Trindade, Walmor Góes, Adriano Sáátiro, Sidail César, Oswaldo Rios. Como ator, trabalhou em: ‘‘Banho de Lua’’ (de Manoel Carlos Karam, 1975), ‘‘O Grande Duelo I e II’’ (de Roberto Prado, 1977), ‘‘O afogamento prematuro’’ e ‘‘Cuatro Balazos’’ (de Alberto Centurião, 1977) e ‘‘Fita Crepe’’ (de Antonio Thadeu Wojciechovski e Paulo Leminski, 1980), além de atuar em diversos shows musicais e recitais. Morou, durante algum tempo, em Petrópolis, São Paulo e Rio de Janeiro. Colaborou com diversos jornais e revistas, como repórter, redator, editor, crítico musical e articulista. Publicava contos e crônicas na Folha. Marcos Prado tinha 6 irmãos e deixou uma filha, Araiê Berger Prado de Oliveira, hoje com 17 anos.

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