Um mosaico de emoções
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de julho de 2002
José Castello<br> Agência Estado 
Já se vão 72 anos que a poeta portuguesa Florbela Espanca cometeu suicídio, tomando dois frascos de Veronal, um tranquilizante receitado por seu terceiro marido, que era médico. Ato com o qual ela não só anulou sua vida, mas que também deixou como último obstáculo a impedir que possamos enquadrá-la em algum sentido. Tempo, ao que parece, insuficiente, e quanto mais se alarga mais insuficiente é, para que se forme uma imagem nítida, um esboço firme que a retrate e a defina. Como diz a organizadora desse volume de contos, cartas e diário, ''Afinado Desconcerto'' (Editora Iluminuras, 302 págs., R$ 35), Maria Lúcia Dal Farra, a incompreensão marcou a vida de Florbela. Talvez venha a resumi-la. Dor, solidão, ''má fama'', depressão, dispersão violências a que reagiu com desprezo e rudeza.
Foi uma poetisa de olhar seco, como descreveu José Gomes Ferreira, seu colega de faculdade, olhar marcado por um ''desdém de atirar tempestades para o céu''. Altivez com que, enfim, protegeu sua vitalidade. Os vários retratos que o tempo nos legou de Florbela formam peças que aparentemente não combinam e que nos deixam diante de um enigma. De um personagem que se mistura à esplêndida poesia que escreveu. Via-se deslocada do mundo e se definia como uma ''deserdada''. ''Andam em mim fantasmas, sombras, ais...'', ela diz num soneto. ''Névoas de dantes, dum longínquo outrora'' como um estigma, ou uma maldição. Comportava-se como uma estrangeira, uma forasteira no mundo que lhe coube viver: ''Dum estranho país que nunca vi/ Sou neste mundo imenso a exilada'', escreveu no Livro de Sóror Saudade.
Florbela de quem também foi lançado recentemente o volume ''Sonetos'' (Bertrand Brasil, 192 págs., R$ 33) nasceu em 1895, no Alentejo. Começou a escrever poesia aos 9 anos. Aos 19 anos, casou-se em Évora, com Alberto Silva Moutinho, seu colega de escola. Estudou Direito em Lisboa e, em 1921, divorciou-se de Moutinho para casar-se com Antonio Marques Guimarães. Sua primeira coletânea de sonetos, o ''Livro de Mágoas'', é de 1919. A segunda, ''Livro de Sóror Saudade'', de 23. Publicaria mais seis livros, além de cartas, diários, e sonetos e obra completos.
Em 25, depois de acusada de ''abandono do lar'', divorciou-se do segundo marido. Logo depois, casou-se pela terceira vez, com o médico Mário Pereira Lage. Três anos mais tarde, já apaixonada pelo médico e pianista Luiz Maria Cabral, tentou o suicídio, com soporíferos, mas sobreviveu. Em 30, já apaixonada pelo advogado Ângelo César, tentou novamente, na mesma hora em que nasceu e quando completava 36 anos, tomando barbitúricos. Dessa vez, não falhou.
Florbela se amparava na irreverência, com a qual manifestou seu desprezo pelas convenções sociais. A crítica salazarista nunca a perdoou; a via como uma mulher insaciável, eternamente insatisfeita com a vida e, assim, embotada da visão de Deus. Para os tradicionalistas, em Florbela, o pensamento (louco e perigoso) predominaria sobre o espírito (esse sim, sereno). Preconceitos de uma época que, no entanto, ainda hoje persistem, rasgando lacunas no mito Florbela.
Em um soneto, dedicado ao irmão, ele também suicida, Florbela diz: ''Eu sei o nome ao meu estranho mal.'' Ao mesmo tempo em que afirma um nome, reafirma o estranhamento. Saudade do que não é do que foi num mundo mítico que a precedeu. Há, nessa perspectiva, uma suposição de inocência, de pureza que se perdeu; uma dificuldade para aceitar aquilo que de fato era.
Mas há em Florbela, ainda, ''uma sede de infinito''. Numa carta escrita a seu célebre professor italiano, diz: ''O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito.'' Que tem saudades, ''sei lá de quê''. Em seu ''Diário'', escrito no último ano de vida, diz: ''O olhar dum bicho comove-me mais profundamente que um olhar humano. Há lá dentro uma alma que quer falar e não pode, princesa encantada por qualquer fada má.''
O drama pessoal de Florbela talvez tenha estancado no suicídio; o que esse suicídio não matou foi a dor que ela expressava, algo que ultrapassava a experiência subjetiva e diz respeito a todos aqueles que, como sempre fez, ousam pensar.


