Nenhum brasileiro é bom brasileiro se não souber compartilhar valores e sentimentos de outras origens. Ele, talvez como ninguém, consegue harmonizar comportamentos, ideologias, palavras, costumes e gestuais. Na maioria das vezes, o brasileiro improvisa aquilo que aportou da cultura árabe. Os primeiros árabes sentiram nosso ar tropical, vindos de países do Oriente Médio e Ásia Central, a partir de 1880. Eram árabes cristãos que se depararam com a Mata Atlântica estupefados.
Nas décadas de 50, 70 e 90, em decorrência de problemas políticos no Oriente Médio, verificou-se uma nova afluência de árabes para o Brasil, destes, a maior parte era muçulmanos. Os árabes encontraram um povo de braços abertos. Difícil hoje é não encontrar uma cidade brasileira que não tenha uma família árabe. Nessa disseminação, os traços culturais foram se espalhando e sendo assimilados paulatinamente, da maneira pós-moderna tipicamente brasileira.
Alquimistas da cozinha, com o paladar buscando um equilíbrio, o brasileiro assimilou pratos da culinária árabe. Os tupiniquins aproveitaram a idéia e improvisam nos kibes, charutos e esfihas. Existem tantas variações de kibes, que até os libaneses se espantam. Como por exemplo, kibe recheado com ovo cozido. O original vem recheado com especiarias.
Nas saladas, as misturas de folhas picadas, cebolinha, salsinha e cebola, também é influência desses povos. Alguns misturam um pouco de trigo cru e dizem que é tabule. É difícil não encontrar um restaurante em que não traga em seu cardápio essas 'especialidades'. Como os árabes consomem pouca carne bovina e se deliciam com carne de carneiro, começaram a influenciar a culinária brasileira. O consumo de carne carneiro aumentou no Brasil, de carona nos tabules e charutos. Na culinária ainda pode-se creditar o crescimento do uso do azeite em diversos pratos graças à assimilação da cultura árabe. Do nordeste ao extremo sul, as donas de casa estão espertas e não compram qualquer tipo de azeite.
Na algazarra de uma feira-livre, a madama com perfume de almíscar pechincha o no preço o alface, alfavaca, alecrim e almeirão na banca do japonês com guarda-pó de algodão. O preço da tabela é preso com um alfinete. Tanto o japonês quanto a madama desconhecem que as palavras iniciadas com 'al' têm origem árabe. Não dá para alegar que todas com essas iniciais têm origem árabe. Alegar, por exemplo, é de origem latina.
Aliás, pechinchar é uma prática tipicamente do oriente. Como os árabes o lado comercial está no código genético. No Brasil, mesmo com diplomas de médicos e engenheiros na parede, muitos não exercem a profissão, se rendendo à paixão de se relacionar com gente diferente a todo momento.
Na decoração, os ornamentos e enfeites tão comuns hoje no Brasil receberam influência direta também do oriente. Os tapetes, enfeites dourados e até a arquitetura se renderam aos arabescos. Desde o quarto do bebê à sala de estar existem elementos que trazem o exotismo dessa cultura.
Em terra de samba, dança do ventre entrou de penetra em casamentos. Nas alegres festas de casamentos das numerosas famílias árabes, é possível encontrar uma dançarina do ventre exibindo suas habilidades. Coisa inimaginável pelos países do Oriente Médio e Ásia Central.
A curiosidade em relação ao exótico, ao diferente, ao agradável aos olhos e paladar, faz com que as Festas das Nações, mania espalhada pelas escolas e comunidades do País, tenha sempre uma barraca representando os árabes, que participam com trajes típicos, danças folclóricas. Com isso, o Brasil, um país que é um mosaico de culturas e raças diferentes vai moldando lentamente traços culturais de um povo que valoriza, antes de tudo, a família.
Fontes: Arquivo Folha, Zakie Khouri, Leonice Camarani El Kadri e Mohamad El Kadri.

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