Um momento único em 'Lembramentos'
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quarta-feira, 22 de janeiro de 2003
Luiz Claudio Oliveira<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Elifas Andreato, um dos maiores artistas gráficos do País, embora prefira ser reconhecido como um artesão, durante mais de 30 anos de carreira, sempre afirmou que jamais faria uma exposição individual tradicional. Completando hoje 57 anos, felizmente mudou de idéia e acha-se já na idade de tentar deixar registrado um pouco de sua vivência para as gerações mais novas. Por isso, até o final deste ano deverá estar pronta a exposição ''Lembramentos'', um neologismo que une as palavras lembranças e momentos, a primeira e talvez única exposição do artista.
''Lembramentos'' tentará representar em imagens um pouco de histórias da música brasileira, vividas pessoalmente pelo artista, ou conhecidas por ele através de outras personagens. ''Música é a minha paixão e vou fazer grandes painéis com experiências que tive com ela'', explica. Andreato cita o pensador político italiano Norberto Bobbio para afirmar que tem um compromisso de deixar algo para as pessoas que não viveram o que ele viveu: ''Bobbio falava que só você pode cuidar da sua memória e eu vou cuidar da minha''. Explica que a palavra ''lembramentos'' tem sonoridade, um sentido de compromisso, de relatos e é tão abrangente quanto à proposta.
A exposição terá grandes painéis, de 1m60cm de altura, em várias técnicas. Ainda está sendo criada, mas o primeiro quadro, Elifas já sabe qual será. ''É sobre uma história minha com o Pixinguinha, que ocorreu em 1970, de uma coisa que ele me falou e eu só fui entender 12 horas depois, quando voltava do Rio para São Paulo. Eu perguntei quem poderia continuar o trabalho que ele, mais Donga e João da Baiana vinham fazendo. Ele pensou um pouco e respondeu: 'Meu filho, nós somos um poema'.''
A exposição terá grandes nomes da música popular brasileira, como Chiquinha Gonzaga ''que fez a primeira música de Carnaval do Brasil e eu retratei de uma maneira ousada, quase engraçada'' Cartola, Lupicínio Rodrigues, Clementina de Jesus, Luis Gonzaga, Dorival Caymmi, entre outros. A exposição deverá se transformar também em livro, embora ainda não haja nenhum patrocínio.
''Não tenho quem pague e eu não tenho dinheiro para pagar a impressão de um livro, mas não vou desistir e ele vai sair'', afirma com a convicção de quem não abriu mão de fazer seu trabalho mesmo nos tempos mais difíceis e de pouca liberdade, na ditadura militar do Brasil. De qualquer maneira não deixa de ser irônico o fato de um dos maiores artistas gráficos brasileiros de todos os tempos não ter uma fila em sua porta de gente interessada em patrocinar este trabalho. Talvez seja só falta de informação das grandes editoras nacionais.
A qualidade de Elifas Andreato se revela no fato que ele entrou como estagiário na Editoria Abril e em três anos já era editor de arte, fazendo as capas da revista. Apesar de, como ele mesmo diz, ganhar dois fuscas por mês de salários, deixou tudo para trabalhar no jornal Opinião, um dos marcos da imprensa de resistência à ditadura militar. Atualmente fica ''indignado'' com que vê nas capas de revistas, tanto na parte gráfica quanto na escolha e abordagem dos assuntos.
Hoje, o artesão de imagens é editor da Revista Almanaque Brasil de Cultura Popular, que circula a bordo dos vôos da TAM, com 100 mil exemplares mês. E sofre para conseguir patrocinadores. Esteve em Curitiba para dar palestras a participantes do curso ''Artes Design'', organizado pelo Senac e que consiste em exposições, aulas demonstrativas e palestras. Andreato falou sobre ''A Profissão do Artista''.


