Um mito na intimidade
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quinta-feira, 28 de março de 2002
Roberta Brasil TV Press 
O apresentador Cláudio Lins, de A Vida É Um Show, da TVE/Rede Brasil, tentou o que parece impossível: extrair do verborrágico Caetano Veloso o que ele ainda não disse em outras entrevistas. O programa, previsto para ir ao ar na primeira semana de maio, é todo dedicado ao músico baiano a série vai ocupar a semana inteira, segunda a sexta-feira. No mesmo formato, já foram ao ar programas com artistas como Hermeto Pascoal, Leila Pinheiro, Afro Reagge e cerca de 50 outros nomes da música brasileira. Mas o tropicalista tem um sabor especial para o apresentador e a equipe do programa. É com ele que A Vida É Um Show vai comemorar seu primeiro ano na tevê. Caetano, por sua vez, teve outras razões para entrar na sabatina biográfica: Cláudio é amigo do meu filho Moreno há muitos anos. Conheço o pai dele, Ivan Lins... E Cláudio é bonito, explica o cantor de fala melódica, com um inseparável copo de refrigerante na mão.
Foi a partir de um extensa lista de programas televisivos, apresentada pela gravadora Universal, que Caetano selecionou uma meia dúzia para divulgar o DVD Noites do Norte. Entre os eleitos como Gabi, da Rede TV!, e Programa do Jô, da Globo entrou A Vida É Um Show. Mas não foi uma escolha meramente emotiva. Segundo o cantor, o programa é o único sobre música na televisão aberta que trata o assunto de maneira paciente. Até a MTV, especializada em música, é muito picotada. Já os programas de auditório são todos superficiais, em play-back. Gosto de programas que não tenham tanta pressa em despachar o artista, critica o baiano. Ironicamente, era ele quem, apesar do jeito manso, tinha pressa em concluir a gravação realizada na Universal, no Rio de Janeiro para assistir a um espetáculo de teatro. A agenda dele é intensa. Não é toda hora que está disponível para uma gravação longa como essa, minimiza Luiz Carlos Pires, diretor do programa.
De fato, foram cerca de 90 minutos de entrevista dedicados à trajetória artística do músico. O tom intimista da conversa rendeu pérolas como a história de como o então garoto Caetano decidiu, na sorte, o nome dado à irmã, a cantora Maria Bethânia, ou porque considera que seu disco Totalmente Demais, que chegou a 250 mil cópias, nunca deveria ter saído, de tão ruim. Tímido e espalhafatoso, humilde, porém imodesto, foram algumas das inusitadas autodefinições do cantor, que diz ter aprendido a tocar violão com o amigo Gilberto Gil, e tenta, na entrevista, explicar porque não se considera dotado para a música. Enquanto o papo frouxo rolava frente às câmaras, a pequena equipe acompanhava a tudo extasiada. Estava meio apreensivo de entrevistar Caetano. Sempre fui fã dele, confessa Cláudio, que conheceu Moreno Veloso na escola e, na carona do amigo, entrava sempre de graça nos shows do músico baiano.
No comando da gravação, o diretor Luiz Carlos Pires mais parecia o maestro de uma orquestra muda. Com 38 anos de carreira televisiva basicamente dedicada a musicais , ele coordenava tudo no silêncio absoluto. Como de costume, a comunicação com os cameramen e a equipe técnica era feita somente por gestos. Tudo para não interromper a continuidade da entrevista que, após editada, ganhará imagens de arquivo e de shows recentes. A Vida É Um Show é uma minissérie musical, que conta a história do artista, resume o diretor, que considera excelente o horário das 22 h. É a faixa tradicional dos musicais isto é: quando havia grandes musicais na tevê, alfineta.
Foram justamente os antigos festivais de música das emissoras Record e Excelsior que ajudaram o baiano franzino de Santo Amaro da Purificação a deslanchar na carreira, em meados da década de 60. A época foi marcada pela relação estreita entre tevê e música popular. É até bom que, hoje, a música seja independente da televisão e vice-versa. Mas sinto falta de encontros como esse. De momentos mais aprofundados de música na televisão, diz Caetano - que parece mesmo ter sempre algo mais para dizer.


