Um mito faz hoje 90 anos
Naquele 1º de abril de 1930, o cinema ficaria para sempre marcado pela presença de r Marlene Dietrich, explodindo em 'O Anjo Azul'
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quarta-feira, 01 de abril de 2020
Naquele 1º de abril de 1930, o cinema ficaria para sempre marcado pela presença de r Marlene Dietrich, explodindo em 'O Anjo Azul'
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ especial para Folha 2 
Nenhuma cena de nudez, na histórica estreia. Somente fascinação. Na época, ninguém tirava a roupa. E nem foi preciso. Porque o filme era carregado de uma pulsão sexual inusitada, até para os dias de hoje, decorrido quase um século. Filmado em 1930, nos últimos dias de Weimar e com restos estéticos do Expressionismo, “O Anjo Azul” foi o primeiro filme sonoro alemão, baseado em romance de Heinrich Mann
(o irmão menos famoso de Thomas Mann).
No argumento, o drama de Immanuel Rath, um formal e ridículo professor do ensino médio (Emil Jannings), bulimizado por seus alunos (todos homens). Vencida na Primeira Guerra Mundial, a Alemanha já sinalizava para o nazismo sem que o diretor Joseh von Sternberg desconfiasse. Ambientes e condutas sugerem uma perigosa decadência : o professor quer saber onde vão seus alunos e descobre o cabaré “Der Blaue Engel”, cuja principal atração é a cantora Lola Lola (Dietrich).

O professor deduz que o local pode corromper a moral dos estudantes, mas é ele quem passa pela maior transformação de sua vida: definitivamente cai de quatro por Lola Lola, se casa com ela e se integra a este universo desconhecido. Esta primeira parte é como uma comédia de situações , uma espécie de vaudeville. E funciona como exercício sadomasoquista poucas vezes visto no cinema. Jannings, um dos grandes atores trágicos de sua época, já tinha sofrido humilhações em personagens em trabalhos anteriores, e mais um vez se submete à ignominia e à degradação. Por sua própria vontade, em nome de sua paixão.
Dietrich, por sua vez, tem a oportunidade de mostrar toda uma maligna sensualidade no palco, com suas pernas perfeitas, seus olhares desafiantes, e sua voz cavernosa em canções que, para aqueles dias, tinham fortes alusões sexuais. Mas fora desse personagem, Lola Lola é uma moça simples que aceita se casar com um homem patético porque circunstâncias a levam a isto. O personagem, de alguma maneira, inaugura a galeria das prostitutas humanitárias, com bom coração, como mais tarde serão a Cabiria de Fellini, a Hollyw Golightly de “Bonequinha de Luxo”, e a Sweet Charity de Bob Fosse. Lola Lola provoca no espectador uma impressão não carnal.
O enorme êxito do filme levou Hollywood a importar a dupla Dietrich- Sternberg, que foi aos EUA filmar “Marrocos”, com a atriz novamente vivendo personagem avassaladora e ambígua, ao lado do galã Gary Cooper. Marlene não voltou à Alemanha, apesar da insistência do asséedio de Hitler. Tornou-se cidadã americana e fez campanha aberta durante a guerra pelos aliados. Ela e seu diretor alemão ainda fizeram juntos mais cinco filmes, definitivos para solidificar o mito Dietrich, que transbordou para muito além das telas. Jannings , por sua vez, aderiu ao nazismo, fez filmes de propaganda e terminou a carreira quase esquecido.
“O Anjo Azul” está disponível em cópia integral no Youtube, entre outros endereços.


