Um místico atormentado
ReproduçãoGraham Greene: obra pontuada pela reflexão sobre a ética humanaSe fôssemos eleger alguns escritores-símbolo do século XX, Graham Greene estaria seguramente entre eles. Até mesmo sua cronologia biográfica (1904-1991) parece colaborar para isto. Libriano, de 2 de outubro, nascido em Berkhamested, Inglaterra, típica criança-problema, expulso da escola em que seu pai era diretor, e enviado a Londres, muito precocemente foi confiado aos cuidados psicanalíticos de famoso terapeuta da época.
Aluno aplicado da rigorosa Oxford, ali, em meio à descoberta de Kierkegaard e da Metafísica, Graham Greene, depois de profunda crise religiosa, converteu-se ao catolicismo. Toda sua obra é pontuada por uma meticulosa reflexão sobre a ética humana e, por seu cristianismo, muita vez selvagem, Greene se aproxima daqueles místicos atormentados que, neste século, buscaram Deus em meio aos rancores e violência de duas grandes guerras.
Escreveu sobre nossa época como nenhum escritor inglês, tocando, com mão de mestre, os grandes temas da contemporaneidade - dos ‘‘existencialismos’’ à profissão de fé no Cristo, do amor a Deus ao amor do socialismo, pioneiro em conjugar teísmo e ‘‘revolução’’ social ainda que se autodefinisse como um ‘‘empedernido conservador’’.
Jornalista (trabalhou no ‘‘The Times’’) o seu ‘‘período de ouro’’ costuma ser situado na década de 30, na pesadelar atmosfera que sucedeu à Depressão (1929), onde seus mais intensos romances se passam, ágil no flagrar o ovo da serpente, denunciando, no nascedouro, as várias máscaras com que sob enganosa aparência de desimportância (e é sempre assim que se insinua...) o fascismo se impunha.
Entre seus livros, vale destacar ‘‘Expresso do Oriente’’, de 1932, ‘‘O Poder e a Glória’’ (1940), ‘‘O Coração da Matéria’’ (1948) e o comovente ‘‘Monsenhor Quixote’’, canto de cisne, uma pequena grande obra-prima já no crepúsculo de sua longa e laboriosa vida encerrada em Vevey, na Suíça, em 3 de abril de 1991. (W.B.)

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