Um minucioso inventário
PUBLICAÇÃO
domingo, 27 de setembro de 1998
ReproduçãoVaso de CariátidesÉrika Pelegrino 
Seguindo a idéia de refletir os 500 anos de descobrimento do Brasil e não apenas comemorar, a Fundação Bienal de São Paulo está preparando a exposição Brasil 500 Anos. O evento fará um panorama das artes visuais no País desde as grandes culturas pré-cabralinas até a arte contemporânea. O objetivo é criar uma visão integral e não redutora da arte brasileira.
ReproduçãoManto Tupinambá, do século 16/17: fibra vegetal, penas e pele de pássarosNão se trata de mera celebração, mas de uma criteriosa aferição em todos os campos por onde as artes visuais nacionais enveredaram. Problemas de história da arte serão colocados na ordem do dia pela primeira vez, afirma Edemar Cid Ferreira, comissário geral do evento. A idéia é restituir o projeto do crítico de arte Mário Pedrosa, diretor artístico da VI Bienal de São Paulo (1961), de dar a mesma dignidade às artes populares, afro-brasileiras, indígenas, às imagens do inconsciente que às reconhecidas pelas elites.
Esta viagem pelas artes visuais será realizada através de 10 núcleos: Arquelogia, Artes Indígenas, Arte Afro-Brasileira, Arte dos Séculos 17 e 18, Arte Popular, Arte do Século XIX, Imagens do Inconsciente, O Olhar Distante, Arte do Século XX e Ação Cultural. Para traçar o panorama de tudo o que foi realizado nestes blocos durante os 500 anos de descobrimento do Brasil, 120 pesquisadores estão trabalhando há um ano.
ReproduçãoXangô Crucificado, de Abdias Nascimento: arte afro-brasileiraO trabalho consiste, ainda segundo Edemar Cid Ferreira, em resgatar objetos, obras de arte que estão fora do Brasil, além de pesquisa de comportamento entre outros aspectos da arte brasileira. No caso da arte indígena, por exemplo, além de estudar o comportamento desta hábitos, tradição, cultura desta população, serão trazidos de Bruxelas e Estocomo objetos que pertenceram aos índios brasileiros, entre 1500 e 1600. Entre estes objetos está o manto Tupinambá, manto da mitologia indígena feito de algodão ou fibra vegetal, peles e penas de pássaros, com dois metros de altura.
ReproduçãoMamoeiro, de Tarsila do Amaral: óleo sobre tela
Os registros deixados por artistas estrangeiros e cientistas que estiveram no Brasil estudando a sua flora e fauna também serão resgatados. Estarão sendo mostradas as contribuições para a iconografia nacionais dadas por visitantes e imigrantes. De Franz Post, que veio para o Brasil na expedição de Maurício de Nassau, a Anselmo Kupher, alemão que pintou São Paulo, o Núcleo Olhar Distante, estará mostrando obras de diversos artistas.
Baiana, de Rodolfo BernardelliObras destes artistas que estão no Museu do Louvre, em Paris e com colecionadores particulares serão resgatadas para a exposição. Imagens do Inconsciente trará a expressão artística de internos em hospitais psiquiátricos. As potencialidades da escultura religiosa, a riqueza da produção artística afro-brasileira, a herança cultural dos primeiros habitantes, e muito mais será mostrado pelos demais núcleos da exposição.
O resultado de todo este trabalho será apresentado em três de maio de 2000, no pavilhão Ciccillo Matarazzo da Fundação Bienal de São Paulo. No mesmo dia serão lançados 10 livros com o resultado da pesquisa de cada núcleo. Segundo Edemar Cid Ferreira, é impossível, por enquanto, precisar quantos objetos estarão expostos. Mas a dimensão do evento pode ser avaliada pelos 30 mil metros quadrados de espaço físico que ocupará.
Durante um ano meio a exposição Brasil 500 Anos irá viajar em módulos de 3 mil metros quadrados para as principais capitais brasileiras e para Europa e Portugal. O evento está orçado em US$ 15 milhões. A Fundação Bienal de São Paulo já investiu US$ 1 milhão e a partir de janeiro de 1999 começará o trabalho de busca de patrocínio.


