Jerzy Grotowski dizia que para existir teatro são necessárias apenas duas coisas: ator e espectador. Ele pode existir sem texto, sem cenário, sem figurino, sem iluminação, sem música, etc, mas não pode existir sem a figura do ator e a do espectador. A companhia Caixa de Imagem, presente no Filo/99, radicaliza esse princípio e demonstra que para que o teatro exista é necessário apenas um único ator e um único espectador.
Trabalhando com o teatro de bonecos em miniaturas, a companhia paulista desenvolve o que pode ser chamado de ‘‘teatro individual’’, onde apresenta seus espetáculos para uma platéia constituída de um única pessoa. Justamente numa época em que toda a informação, estética ou não, tende a ser de massa, destinada a milhões de espectadores, a montagem ‘‘Teatro de Animação’’ realiza o movimento inverso.
Recupera a auto-estima do ser humano como indivíduo, não como massa. Baseado na simplicidade, cria uma atmosfera propícia para uma intimidade entre espectador e obra, a atmosfera do encantamento se fundamenta na poética da sutileza. Os miniespetáculos, com cerca de quatro cada (ao todo serão apresentados cinco durante o evento), acontecem dentro de uma caixa escura de pequena dimensão, que reproduz uma sala teatral.
O espectador é convidado a entrar, através do olhar, num universo que mantém viva a magia da teatro. Manipulados, os pequenos bonecos ganham humanidade e estabelecem uma sigilosa cumplicidade com a platéia, o indivíduo. Os locais onde a Caixa de Imagem (Carlos Gaúcho, Mônica Simões, Fábio Coutinho e Evelyn Cristina) apresenta seu trabalho complementa seu significado: ruas e praças.
O transeunte convertido em espectador passa da dispersão para a concentração, do exterior para o interior, das grandes dimensões para os pequenos detalhes, da aceleração do tempo para sua desaceleração, da agitação para a tranquilidade, da realidade para a fantasia. Transforma pela simplicidade.
‘‘Teatro de Animação’’ provoca um breve ‘‘ruído’’ na realidade. Um ruído poético que pode oferecer um minioásis ao transeunte/espectador que atravessa o paranóico deserto urbano.

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