J.PedroJane Bordin: ‘‘A descoberta
se deu por sorte ou, talvez,
pelas mãos da Senhora da Conceição’’Menos de dois anos depois de haver concluído o trabalho de investigação sócio-histórico-iconográfico ‘‘Tota Pulchra - O Santuário Mariano e o Culto da Imaculada Conceição na Sociedade Luso-Brasileira nos séculos 17 e 18’’, a artista plástica e professora assistente do Departamento de Artes da Universidade Estadual de Londrina, Jane Bordin, apresenta agora um artigo sobre uma descoberta que fez sobre um assunto derivado daquele trabalho, ‘‘Um Ex-Voto Imaculista do Século 17 da Igreja Nossa Senhora dos Anjos’’.
O artigo será publicado, neste ano, no Boletim Cultural da Assembléia Distrital de Lisboa (anos 92 a 96), um catálogo que reúne artigos de estudiosos e pesquisadores sobre assuntos de interesse para o povo português relacionados à área cultural. Segundo Jane, ela foi estimulada a publicar este artigo pelo seu orientador, doutor Vitor Serrão, historiador, escritor e chefe do Departamento da História da Arte do Instituto de Letras da Universidade de Lisboa. ‘‘O doutor Serrão me estimulou graças ao valor histórico e o ineditismo de minha descoberta, um ex-voto gratulatório que estava guardado na Igreja Paroquial Nossa Senhora dos Anjos, em Lisboa, e sobre o qual ninguém nunca tinha feito nenhum tipo de estudo ou referência’’ - conta.


Mais antigo Ex-voto é, segundo Luís Chaves, autor do livro ‘‘Ex-votos do Museu Etnológico Português’’, ‘‘uma oferenda levada ao altar, lugar sagrado, daquela entidade divina, a quem se pediu alguma coisa, e de quem se obteve a realização do pedido’’. Quando o ex-voto é uma pintura, é chamado de retábulo ou milagre. A descoberta de Jane é um destes, um quadro de 1,30m por 1,10m (sem moldura) em óleo sobre tela, datado de 1690, em bom estado de conservação, de autor desconhecido. ‘‘Este é o segundo mais antigo retábulo datado que se tem história mas o primeiro de boa qualidade artística. Esta é a principal diferença entre este trabalho e outros retábulos que, normalmente, são arte popular, onde os pintores não têm conhecimento de técnicas nem estilo’’ - diz.
Jane conta que a descoberta se deu por acaso, ‘‘pela sorte ou, talvez, pelas mãos da Senhora da Conceição’’. ‘‘Para o trabalho de Tota Pulchra, eu fiz um levantamento fotográfico de imagens e pinturas da Imaculada Conceição naquela Igreja, apoiada no livro ‘Santuário Mariano’, de Frei Agostinho de Santa Maria, de 1797. O livro falava sobre uma imagem que nem existe mais e cuja única representação é este quadro’’ - diz.

ReproduçãoO quadro do século 17 estava escondido na igreja Nossa
Senhora dos Anjos. No detalhe, as velas usadas na festa da Senhora
Gratidão Segundo ela, o quadro contava a história de um milagre que teria acontecido na festa que a Irmandade de Nossa Senhora da Conceição fez para homenagear a padroeira, no dia 8 de dezembro de 1690. ‘‘Fui procurar referências e a única que tive foi no próprio ‘Santuário Mariano’, uma cópia do texto que está escrito no quadro’’ - explica.
Jane conta que o quadro tinha todas as características de um ex-voto (uma parte pictórica e uma parte escrita, que contam a história do milagre e trazem o nome da pessoa que pediu a graça, o nome do santo ou divindade que o atendeu, o nome de quem recebeu a graça e local onde se passou) e que isto lhe despertou a curiosidade. ‘‘Este quadro que todos, inclusive na própria igreja, tinham como uma pintura comum é um ex-voto gratulatório, concebido para demonstrar a gratidão daquela Irmandade à Senhora, pela graça concedida no dia de sua festa’’ - explica.
Jane teve que voltar ao Brasil e deixou interrompida suas pesquisas. Quando retornou a Portugal, em fevereiro do ano passado, dedicou-se a produzir seus trabalhos artísticos. ‘‘Eu tinha que retornar ao Brasil no começo de dezembro e foi somente em novembro que decidi fazer a pesquisa a fundo, estimulada pelo meu orientador. Em um mês fiz todas as pesquisas’’ - conta.
Segundo ela, faz uma análise artística e histórica do período em que o quadro foi pintado em seu artigo. ‘‘Nesta pesquisa, só não consegui saber o nome do autor, mas a igreja é antiga e lá trabalharam muitos pintores famosos. É possível que a tela tenha sido feita por um deles, porque é uma pintura de erudição de qualidade indiscutível’’ - analisa.
Para ela, o principal é o ineditismo de seu trabalho. ‘‘Este quadro está no local há 300 anos e eu fui a primeira pessoa a fazer algum tipo de registro e análise sobre ele’’ - conta. Agora, Jane diz que, com os dois trabalhos - ‘‘Tota Pulchra’’ e este artigo, pretende desenvolver a tese de mestrado ‘‘Iconografia e Culto de Nossa Senhora da Conceição no Século 17’’, sob orientação de doutor Serrão, e, depois, transformá-la em livro.
A propósito, a artista explica que o milagre retratado é ‘‘bobinho’’ - mostra apenas que as velas usadas na festa da Senhora, em vez de diminuir depois de queimar um dia inteiro, tiveram seu tamanho aumentado e que o azeite da lâmpada queimou três dias sem que fosse necessário colocar mais. ‘‘O mais importante é o conteúdo ideológico que o quadro contêm, num discurso didático para manter a ortodoxia católica, contra o protestantismo que estava surgindo’’ - afirma.

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