UM MESTRE DA LÓGICA
Ele é praticamente uma lenda viva. O curitibano de 71 anos Newton Carneiro Affonso da Costa é considerado o filósofo brasileiro que mais vem se destacando nos meios acadêmicos internacionais. Esteve na última quarta-feira na Universidade Estadual de Maringá (UEM) e irá ministrar uma palestra hoje, a partir das 19 horas, no anfiteatro maior do Centro de Ciências Humanas da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O tema da aula, que irá inaugurar o curso de especialização de História e Filosofia da Ciência, será O conhecimento científico e os fundamentos da ciência.
No meio acadêmico brasileiro, seu currículo é invejado: formou-se em Engenharia (para verificar como as ciências puras encontram aplicação) e em Matemática; foi um dos primeiros brasileiros a ingressar na Association for Symbolic Logic, dos EUA; tornou-se doutor em matemática, livre docente de análise matemática e superior, catedrático desta disciplina e professor titular na Universidade Federal do Paraná (UFPR), Unicamp, ITA e USP (tanto em departamentos de filosofia como de matemática); recebeu o Prêmio Moinho Santista e o Prêmio Jabuti, ambos em Ciências Exatas; foi eleito para o Instituto Internacional de Filosofia de Paris (único brasileiro entre os seletíssimos 116 membros) e o Instituto de Filosofia do Peru; publicou cerca de 200 artigos, além dos livros Ensaios sobre os fundamentos da lógica, Introdução aos fundamentos da matemática, Lógica indutiva e probabilidade, O Conhecimento Científico entre outros; sistematizou e formalizou um conceito de verdade pragmática (a teoria da quase-verdade); e finalmente, o seu maior feito - criou a lógica paraconsistente, a inédita lógica que admite contradições.
Você pode até indagar - lógica que admite contradições? Sim, uma lógica que permita algo ser e não ser, estar e não estar, tudo ao mesmo tempo e sob a mesma intensidade. Mas como uma lógica poderia ser ilógica aparentemente? A resposta se origina nos problemas apresentados pela matemática do começo do século passado.
Para o grande Georg Cantor matemático alemão que desenvolveu estudos sobre teoria dos conjuntos , a essência da matemática está na liberdade. Os paradoxos que surgiram no início do século XX foram eliminados com a manutenção da lógica tradicional e com as restrições aos postulados da teoria dos conjuntos. Então da Costa pensou: se a matemática é absolutamente livre, poderiam ser aceitas as lógicas não-clássicas? Eis que em 1963, a sua tese de cátedra Sistemas Formais Inconsistentes foi apresentada na UFPR e tornou a lógica paraconsistente uma das grandes descobertas recentes do pensamento brasileiro para a humanidade, senão a maior. Basta citar que estudiosos de várias áreas (psicanálise, direito, informática, física, entre outras) trabalham com esta lógica que poderíamos denominar machadiana, como aquela que o bruxo do Cosme Velho nos relata no conto Igreja do Diabo. Seria esta a própria condição humana, pensar sempre em aparente incoerência?
Da Costa não desconsidera as lógicas clássicas, : Antes de alguém estudar as lógicas não-clássicas deve se aprofundar na lógica clássica, a mãe de todas, e que continua tendo as suas aplicações. O filósofo relembra que dois grandes professores o estimularam ao estudo aprofundados desses temas, o matemático português João Remy Teixeira Freire e o professor da USP hoje aposentado Edison Farah.
E o ensino brasileiro hoje nas faculdades de filosofia, estaria privilegiando o relato das descobertas filosóficas ignorando o estímulo ao pensamento original? O professor discorda dessa avaliação: Tenhos grupos de estudo na área de lógica, e tem muita gente com pensamento próprio. Ele recorda que há estudos sobre lógica paraconsistente na Escola Politécnica da USP (Poli) e que desde 1998 vem ocorrendo congressos mundiais sobre sua descoberta: Em 98 foi na Bélgica, em 99 na Polônia, em 2000 no Brasil e a partir do ano que vem devem ocorrer eventos anuais nos EUA.
Quanto ao pensamento brasileiro do século 20, da Costa diz ser admirador da obra de Miguel Reale, do qual sou amigo e tem obras respeitadas no mundo inteiro, e recorda que em 1941 o saudoso Vicente Ferreira da Silva lançou a primeira publicação nacional sobre lógica matemática.





