Um dos melhores escritores da língua portuguesa, Eça de Queiroz, com talento, ironia - que às vezes se transformavam em sarcasmo - e personagens que se tornaram tipos inesquecíveis (o Conselheiro Acácio, que só dizia o óbvio, por exemplo), revolucionou a literatura de Portugal.
Seguidor do movimento realista, ele revelou as imperfeições da família, da Igreja, do governo, das artes - enfim, da sociedade. Mas sempre com um ótimo humor, pois, como ele próprio afirmava, ‘‘o riso é a mais antiga e a mais temível forma de crítica’’. Seus livros (‘‘O Crime do Padre Amaro’’, ‘‘O Primo Basílio’’ e ‘‘Os Maias’’, para citar os mais famosos) ainda fazem muito sucesso em Portugal e no Brasil - afinal, muitos brasileiros perceberam que, mostrando a sociedade portuguesa, Eça, consequentemente, revelava também a brasileira.
Hoje, os falantes da língua portuguesa dos dois lados do Oceano Atlântico vão celebrar esse grande artista no centenário de sua morte. José Maria Eça de Queiroz nasceu em Póvoa de Varzim, norte de Portugal, em 25 de novembro de 1845. Filho bastardo do juiz José Maria d’Almeida Teixeira de Queiroz, só foi reconhecido legalmente pelo pai quando já era adulto. Eça foi, então, criado pelos avós paternos.
Aos 10 anos, tornou-se interno de um colégio no Porto, onde fez amizade com um rapaz mais velho de quem se tornaria amigo e parceiro literário: Ramalho Ortigão. Juntos eles escreveriam dois livros anos depois: o policial ‘‘O Mistério da Estrada de Sintra’’ e a coletânea de crônicas políticas e literárias ‘‘As Farpas’’.
Com 16 anos, Eça começou a estudar Direito na tradicional Faculdade de Coimbra. Lá, centro da vida intelectual portuguesa, ele conheceu os dois principais divulgadores do movimento realista no país: o historiador Teófilo Braga, que se tornaria o primeiro presidente de Portugal, e o poeta Antero de Quental.
Cinco anos depois, Eça formou-se e foi para Lisboa. Ele já escrevia folhetins, novelas cujos capítulos eram publicados em jornais. Mas esses textos, em estilo romântico, não têm quase nenhum valor literário.
Em 1871, ele e Ortigão fundam a revista ‘‘As Farpas’’, onde comentavam os costumes da sociedade portuguesa. Nessa época, um grande debate agitava o meio artístico, social e político português: Romantismo versus Realismo.
Quental organizou uma série de palestras para divulgar as novas idéias, as ‘‘Conferências Democráticas’’. Em uma delas, ‘‘O Realismo como Expressão de Arte’’, Eça, resumindo o espírito realista, afirmou que ‘‘o Realismo é uma reação contra o Romantismo: o Romantismo era a apoteose do sentimento, o Realismo é a anatomia do caráter, (...) a crítica do homem, (...), a arte que nos pinta a nossos próprios olhos - para condenar o que houver de mal em nossa sociedade’’.
Nesse ano, Eça desistiu da advocacia e resolveu ser diplomata. Candidatou-se ao posto de cônsul em Salvador, na Bahia. Mas, por motivos políticos, o escolhido foi outro. Ele protestou e foi nomeado para Havana, em Cuba. O escritor também foi cônsul em Londres, além de outras cidades inglesas e em Paris. Segundo alguns analistas, as longas temporadas fora de Portugal acentuaram a visão crítica que Eça tinha do país.
Escândalo - Seu primeiro grande sucesso, ‘‘O Crime do Padre Amaro’’, foi lançado em 1875. A história do padre que engravida a filha de uma beata foi um escândalo. Durante muitos anos, o livro foi proibido em algumas escolas portuguesas e brasileiras.
Dois anos depois, Eça publicou outro grande sucesso escandaloso, ‘‘O Primo Basílio’’. Dessa vez, ele criticava a família classe média de Lisboa. Uma dona de casa fútil e entediada trai o marido quando ele está numa viagem a serviço com um primo ‘‘bon vivant’’, que já tinha morado na Bahia (leia texto nesta página). Em certa ocasião, o artista explicou qual era sua intenção: ‘‘Pintar a sociedade portuguesa e mostrar-lhe como num espelho que triste país eles formam - eles e elas’’.
Em 1888, ele publicou ‘‘Os Maias’’, tratando de um tema que ainda é hoje é tabu: o incesto. Mas a relação entre dois irmãos não é o mais importante da obra. O fundamental é o retrato que ela mostra da sociedade portuguesa. Para alguns críticos, esse é o melhor romance da língua portuguesa.
Aos 40 anos, com um posto diplomático em Londres, Eça de Queiroz quis casar-se para pôr ordem em sua vida. ‘‘Eu preciso duma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna (não muita), de caráter firme disfarçado sob um caráter meigo... que me adotasse como se adota uma criança, me obrigasse a levantar a certas horas, me forçasse a ir para a cama a horas cristãs’’, escreveu ao amigo Ortigão.
A eleita foi Emília de Castro Pamplona, irmã do conde de Resende. O casamento influiu muito na obra do artista. Ele tornou-se menos radical, fez elogios aos reis portugueses e escreveu sobre a vida de santos católicos. Suas críticas a Portugal ficaram menos ácidas, como se percebe em ‘‘A Ilustre Casa de Ramires’’. Mas, se o radicalismo foi embora, o talento permaneceu.
Em 16 de agosto de 1900, último ano do século 19, Eça de Queiroz, aos 54 anos, morreu em Paris. Porém, mesmo depois de morto, ele continuou a agradar aos fãs. Algumas de suas obras são publicações póstumas, como ‘‘A Cidade e as Serras’’, uma brilhante defesa de que a qualidade da vida do campo é melhor do que a da cidade, e ‘‘Alves e Cia’’, uma divertida história de adultério.

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