Não há como negar a dificuldade da empreitada de Leandro Vilar. Descobrir quem era Krzysztof Kieslowski é se aventurar por um Leste Europeu que aprisionava o ser humano não só em seu aspecto político, como emocional e existencial. Nascido na politizada Varsóvia de 1941, Kieslowski se formou pela Escola de Cinema e Televisão de Lodz, em 1969. Ele havia tentado ingressar no curso anteriormente por duas vezes, e nas duas ocasiões fora reprovado. O que lhe deixou mais triste, no entanto, não foram as reprovações: ‘‘Quando ele viu o rosto de sua mãe, comovida por ele não ter passado novamente, Kieslowski decidiu que iria fazer o curso por ela’’, recorda Leandro.
Com o pai tuberculoso, e poucos recursos na família, Kieslowski optou pela sétima arte ‘‘por não saber fazer outra coisa’’. Seus primeiros filmes foram documentários, no estilo consagrado pela escola polonesa - antes de poder criar universos, é necessário conhecer a realidade. Após quinze registros do real, partiu para a ficção com média-metragens como ‘‘Pessoal’’ (1975), ‘‘A Calma’’ (76) e ‘‘A Cicatriz’’ (76), esse último lançado há dois anos em vídeo no Brasil.
Seu primeiro reconhecimento internacional veio em 1979, com ‘‘O Amador’’, uma parábola sobre um cineasta que enfrenta o conformismo social e político de seu país. Não pára com os documentários, obtendo êxito internacional com ‘‘O Hospital’’ (77) e ‘‘O Ponto de Vista do Guarda Noturno’’ (79). Em 1984, realiza ‘‘Sem Fim’’ ao lado do parceiro Krzysztof Piesiewicz, passando a imprimir em sua obra uma particular visão sobre o estado das coisas. Entre 88 e 89, filma a série de dez episódios que retratam os dez mandamentos cristãos, ‘‘Decálogo’’. Dois desses filmes são ampliados e ganham as salas de cinema: ‘‘Não Amarás’’ e ‘‘Não Matarás’’. Em 1991, já com todos os olhares do mundo voltado para si, Kieslowski cria um universo mágico para Iréne Jacob, a obra-prima em tom sépia ‘‘A Dupla Vida de Véronique’’. Entre 1993 e 1994, cria então sua obra definitiva, a trilogia das cores: ‘‘A Liberdade é Azul’’, ‘‘A Igualdade é Branca’’ e ‘‘A Fraternidade é Vermelha’’ (todos os disponíveis em DVD no Brasil). Em 1995, um ano antes de falecer, anuncia o abandono à sétima arte. Para ele, as pessoas não se importavam mais com o que viam no cinema. Buscavam apenas distração. Então prá que filmar?
Em mais de 20 anos de cinema, o cineasta angariou prêmios nos mais importantes festivais do mundo: Cracóvia (74, 75, 77, 79), Mannheim (75), Gdansk (75, 76, 79, 88), Moscou (79), Cannes (88, 91), Veneza (89, 93), Berlim (80 e 94), San Sebastian (88), Chicago (80), Lyon (79), e São Paulo (88).
Gostava de Fellini, Bergman e Orson Welles (principalmente ‘‘Cidadão Kane’’). Mas buscou na literatura a maior parte dos temas de sua obra. Kafka, Dostoievski, Dante e Checov o nutriram de um universo angustiante, que moldou sob a mais perfeita técnica os sentimentos mais profundos e desconhecidos do ser humano. Em ‘‘Não Amarás’’, a busca pelo amor ideal se revela imperfeita, já que qualquer possibilidade de concretizar os sentimentos é também a morte deles. Em ‘‘Não Matarás’’, Kieslowski deixa claro sua opção em não mais influenciar a realidade. A cena em que o jovem é executado (para alguns, a mais longa da história - 6 minutos) evidencia a recusa do autor em participar de qualquer julgamento moral, vontade reforçada e mais explícita anos mais tarde em ‘‘A Fraternidade É Vermelha’’. ‘‘A Dupla Vida...’’, mais do que uma trama sobre duas mulheres misteriosas, é uma homenagem a tudo que não sabemos e nos encanta, por mais desconfortante que seja o contato com o belo.
A trilogia representaria a grande autobiografia de Kieslowski, argumenta Leandro Vilar; onde ele estaria mais aberto. A recusa da alma em viver, a dor do amor que se faz inquietante, e o adeus a qualquer intereferência na realidade já anunciavam o adeus de Kieslowski ao cinema. Um abandono trágico, já que esse polonês nos mostrou como poucos os sentimentos que somente imagens, desencontros, devaneios e encantamentos podem nos ensinar. (R.S.G.)

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