Nelson Sato
Bandas instrumentais são malvistas no mundo do rock. Desde o punk, prevalece a idéia de que músicas sem vocais - e com mais de três acordes - servem apenas para boi dormir.
É claro que, a essa altura do campeonato, ninguém mais suporta guitarristas virtuoses e nem engole bandas que tentam levantar o cadáver do rock progressivo. Mas garimpando selos independentes europeus e norte-americanos, é possível flagrar experiências sonoras incomuns, notadamente entre os grupos filiados à vertente batizada pela imprensa de ‘‘pós-rock’’.
O quinteto Mogwai é um dos que se sobressaem na cena. A banda dispensa os vocais para extrair calmarias e tempestades do pilar guitarra-baixo-bateria, adicionando ao núcleo intervenções aqui e ali de flautas, violinos e pianos sinistros. Seu novo álbum, Come on die Young (importado), tem apelo contemplativo.
Testa a paciência dos ouvintes com canções arrastadas, nas quais as guitarrras surgem - aparentemente - à beira da desafinação remetendo ao universo lo-fi (baixa definição) das bandas de garagem norte-americanas. As composições padecem de uma aridez sufocante, melancólica, com dedilhados repetitivos intermináveis.
Só uma faixa é cantada: a bela e triste ‘‘Cody’’, que parece roubada do repertório da extinta banda inglesa Slowdive. Em ‘‘Punk Rock’’, o grupo sampleia uma longa fala de Iggy Pop registrada num vídeo dos anos 70, enquanto que ‘‘Punk Rock/Puff Daddy/ANTICHRIST’’ tira um sarro no produtor norte-americano Puff Daddy utilizando vozes distorcidas, trombones e tapes pré-gravados.
Mas é na parte final do disco - em canções como ‘‘Ex-Cowboy’’, ‘‘Christmas Steps’’ e ‘‘Clocky’’ - que as guitarras comparecem vigorosas oscilando entre a melodia e o descontrole dos pedais. O material foi produzido e mixado por Dave Fridmann, o mesmo que burilou Deserter’s Songs, o aclamado álbum do Mercury Rev e considerado por muita gente o melhor disco de 98.
Mogwai despontou há dois anos com o CD Young Team, lançando logo em seguida a coletânea de singles Ten Rapid. Foi o que bastou para virar objeto de culto de vários músicos (entre eles, Stephen Malkmus, do Pavement) amplificando o burburinho em torno das bandas escocesas contratadas pela gravadora Chemikal Underground.
No final do ano passado, a fama cresceu mais ainda com o lançamento de um CD duplo de remixes reunindo faixas retrabalhadas pelo próprio quinteto e por nomes como My Bloody Valentine, Arab Strap, Alec Empire, U-Ziq e Third Eye Foundation. Come on die Young consolida a reputação da banda.
Para o público brasileiro, a boa notícia é que seus discos poderão ganhar lançamento nacional pela gravadora Trama. A negociação para o licenciamento dos títulos está sendo feita junto ao selo norte-americano Matador, que os distribui nos Estados Unidos.

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