Doutor em Artes Visuais pela Unicamp, o fotógrafo Fabio Gatti, que também é graduado em Desenho Industrial pela Unopar, abordou o tema cu (termo que ele diz preferir em vez do recatado "ânus") no último capítulo de sua tese intitulada "A fotografia em quatro atos: narrativas improváveis sobre a imagem e sua feitura". O capítulo é um livro com mais de 30 páginas com fotografias de amigos e conhecidos, num trabalho de recortes e colagens com textos em decadry, pintura, desenho, trechos da Bíblia e figuras de santos. Todas as fotografias são de sua autoria.
"Este caderno foi construído a partir de inúmeras colagens de várias fotos. Fotos de pessoas, de coisas, fotos de cu, boceta e várias fotos de bosta. Teve uma época que pedia às pessoas que iam em casa que, caso elas usassem o banheiro, que não dessem descarga, pois eu queria fotografar. E fazia isso com uma lente 50mm e dois filtros close-up; era um mergulho na privada", descreve.
Gatti explica que as questões sobre a corporalidade são reflexões sempre presentes em seu trabalho, assim como questões sobre o cristianismo, dentro do qual, inclusive, foi educado religiosamente. "Não existe uma causa específica sobre o que me conduziu a tratar do cu, são relações que estão presentes em minha vida cotidiana e se transbordam em meu trabalho."

Isso é arte?
Diante da polêmica que surge sempre que a arte trata de assunto como genitálias, nudez e o ânus, Gatti lembra que a sociedade em geral acredita que, assim como outros assuntos considerados tabus, tais temas devem ter suas relações restringidas a um ambiente íntimo e privado. "Como se fosse algo feio e não pudesse ser visto, ou como a merda fosse um resultado tão horrível que não pudesse ser exposto", constata.
"O desconforto é mais da ordem moral e aí então se é proibido, feio, torna-se repulsivo e, consequentemente, inútil. Desse modo, a questão de isso ser ou não arte se reforça", diz, completando que, para ele, tabu não é o corpo, mas aquilo que mostramos e como mostramos. "De um modo geral ninguém quer ver uma pessoa cagando ou lambendo o cu de outra artisticamente, mas o engraçado é que isso é muito aceitável, desde que feito escondido entre quatro paredes, dentro do campo da pornografia e das ações de casal ou em grupos. É como se pudesse fazer, mas não se pudesse mostrar; não devo usar isso como argumento artístico, porque aí parece sujo demais. Essa contradição é, talvez, o ponto chave de por que alguns trabalhos que tocam nesses chamados tabus se tornem tão conhecidos."
Sobre a repulsa que grande parte das pessoas manifesta sobre assuntos como esse, sobretudo na arte, ele é taxativo ao dizer que algo ser considerado arte depende de inúmeras variáveis que vão desde o mercado da arte, a própria arte como instituição e a valorização do modo de trabalho de um determinado artista. "Acontece que o cu é ligado diretamente à ideia de excremento. E, se é excremento, não é higiênico, não deve ser mostrado ou compartilhado. Acho muito divertido quando encontro alguém que tem aversão ao ânus e pergunto: da boca você gosta? Porque o avesso do ânus é a boca e vice-versa. Mas o grande problema é que somos seres muito visuais, tudo que entra é mais bonito e agradável do que o que sai. A comida entra em nosso organismo cheia de beleza e de aromas. Quando sai, o aroma é desagradável e o aspecto considerado horrível."

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