Um mergulho na cidade perdida
No alto da montanha se erguem paredes e corredores, formas geométricas que se assemelham a um labirinto. Vista de cima, no topo de seu isolamento, entende-se por que Machu Picchu mergulhou numa obscuridade que atravessou séculos e driblou o domínio espanhol. Lá, num lugar que ainda hoje é de difícil acesso, a cultura Inca deixou seu mais importante marco.
A atualidade não resolveu os mistérios do lugar. A história da cidade é desconhecida. Há quem diga que ali se originou a civilização Inca. Outros a apontam como um refúgio durante a colonização espanhola. A realidade é que as construções ficaram perdidas no meio da mata, tornando-se lenda.
Todo o complexo só veio à tona quando o pesquisador americano Hiram Bingham, procurando a cidade perdida de Vilcabamba, se embrenhou ao pé do pico Wayna Picchu guiado por camponeses que diziam haver na região ruínas desconhecidas. Apoiado pela National Geographic, Bingham revelou Machu Picchu ao mundo.
Foto: DivulgaçãoRevista revelou lugar para o mundoO que era um ninho de cobras coberto pelo mato mostrou sua imponência. O conteúdo é impressionante: são mais de 400 hectares de terra cultivável que circundam uma cidade com 700 metros de comprimento por 300 de largura - um complexo de 216 habitações, 80 de quatro paredes, 80 de três paredes, 40 armazéns e 16 espaços abertos para cerimônias.
Tudo isso permaneceu longe do conhecimento dos espanhóis. A limpeza demorou meses, e aos poucos os bairros foram delimitados, os templos, presídio e escolas reconhecidos. Machu Picchu traz características de planejamento. Sua localização, cercada por montanhas e pelo Rio Urubamba, a protegia de visitantes indesejáveis. Uma das provas da urbanização planejada está na própria cidade, onde uma rocha escavada se revela uma maquete em terceira dimensão de todo o terreno. Na miniatura, estão indicados o Urubamba, montanhas vizinhas e o Wayna Picchu, que fica ao lado das edificações.
Num dos pontos nobres está a Tumba Real, escavada na pedra. Acima, numa torre circular, ergue-se o Templo do Sol, onde uma abertura fragmentada na parede reflete o sol em uma pedra talhada. Ali os estudiosos marcavam e delimitavam os solstícios e outros fenômenos astronômicos.
Na parte mais alta da cidade está o Intiwatana, uma estrutura retangular esculpida na pedra que, para alguns, representa uma interseção da linha norte-sul entre os cumos de Wayna Picchu, Salcantay e a linha leste-oeste de Wakay Willka e San Miguel. Outros juram que se trata de um relógio de sol.
Foto: DivulgaçãoO lugar ainda é cheio de mistério e encantamentoNa praça principal ergue-se o Templo das Três Ventanas, o mais importante. Em frente há um altar de sacrifícios e uma bússola entalhada no chão. No mesmo lugar está a residência do sacerdote. Foi neste local que alguns estrangeiros começaram a gritar, agitados. No canyon, abaixo da praça, um casal de condores ensaiou um vôo lento, planado. O fato chamou a atenção dos guias, que foram enfáticos ao confirmar a raridade da cena, pois o turismo espantou os condores das proximidades.
Além da praça do Templo das Três Ventanas, próxima ao Wayna Picchu, está a Pedra Sagrada, ponto de referência para os místicos que frequentam o local. A pedra é uma réplica da vista que se tem do horizonte, e é comum ver turistas meditando em volta do monumento.
Ainda na parte nobre da cidade fica o Templo do Condor, com uma representação da ave. A cabeça foi entalhada no chão, enquanto duas pedras naturais completam o formato das asas.
Machu Picchu também possui atrativos naturais. Além das matas que cobrem as montanhas, há grande quantidade de flores, principalmente orquídeas. O local ainda é habitado por várias aves e há registros do raro urso andino, que vive em bosques elevados.
Embrenhados em uma overdose de informação que obrigatoriamente reconstrói os hábitos de uma civilização que não via diferença entre religião e ciência, os turistas especulam cada ângulo imaginando um cotidiano para o lugar. Após conferir cada detalhe, deixa-se a cidade com a sensação de se ter perdido alguma coisa. Ao conhecer o local, o turista deve ter consciência de que uma visita é muito pouco.Foto: DivulgaçãoMachu Picchu: realidade, ruínas e construções que se tornaram lendaRanulfo Pedreiro





