UM MERGULHO LIBERTÁRIO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de agosto de 2001
Elisa Marilia Carneiro<BR>De Curitiba 
A peça ''O Falcão e o Imperador'', dirigida, adaptada e com atuação de Letícia Spiller está em cartaz hoje e amanhã, às 21 horas e domingo, às 19 horas, no Guairinha. O especáculo discute as questões essenciais do homem moderno, com as atrizes Letícia Spiller e Jac Fagundes, vivendo os papéis de Deus e seu amante terreno.
Baseada no poema ''Ascese - Os Salvadores de Deus'', do escritor grego Nikos Kazantzákis, a peça é densa, polêmica e com impacto visual, sendo considerada pelos atores como um grito de liberdade, ou um poema cantado em tom imperativo e passional.
O cenário é formado por vários vídeos criados por Muti Randolph, que interagem com as cenas. A iluminação de Maneco Quinderé trabalha junto aos vídeos compondo um espetáculo multimídia. Por sua vez, a sonoplastia é diferente a cada apresentação, com trilha elaborada por Daniela Visco.
Segundo Letícia e Jac é impossível entrar nesse universo e sair ileso. Elas começaram a trabalhar há dois anos e desde então dedicam-se exclusivamente ao espetáculo. ''A intensidade do trabalho provoca uma permanente mudança interna'', reconhece Letícia.
A dupla de atrizes argumenta que gostaria que a peça estabelecesse uma comunicação direta e intensa com o público, uma vez que aborda reflexões sobre o ser humano, mas que raramente recebemos incentivos para refletir sobre elas. ''O Falcão e o Imperador possibilita pensar e nos identificarmos com as contradições internas presentes no dia a dia, e com nossos sentimentos mais profundos'', conta a atriz.
A encenação que as atrizes propõem aposta na capacidade de comunicação do ator através do corpo, da voz e da atitude. Admiradoras da obra do escritor grego, Letícia e Jac estão mergulhadas no seu universo literário.
Ao estudarem ''Ascese...'' elas descobriram várias semelhanças entre a relação dos personagens e o romance vivido no século 13 entre o poeta persa Jalal Ud-Din Rumi e seu amante Shams de Tabriz, a quem o primeiro dedicou 45 mil versos de amor de uma beleza lírica sem igual.
Versado em Filosofia, Direito, Poesia Clássica, Teologia e Ética, Rumi criou, entre outras coisas, a dança giratória que representa o movimento dos planetas ao redor do Sol - ou a correspondência entre o microcosmo e o macrocosmo, a busca de eu supremo.
Nikos construiu uma carreira literária que o alçou ao posto de um dos maiores escritores gregos de todos os tempos. Seus livros quebraram a barreira da língua e receberam traduções em quase todos os idiomas - do português ao ídiche, do inglês aos dialetos africanos. Alguns deles chegaram às telas do cinema e só fizeram ampliar a polêmica em torno de sua obra. ''Zorba, o Grego'' e ''A última tentação de Cristo'' dividiram opiniões de público e crítica e o captapultaram ao estrelato póstumo.
Em ''O Falcão e o Imperador'', Deus encontra seu amante, numa relação erótica e humanamente carnal. Através desta história inusitada, o autor constrói o seu libelo a favor da liberdade e deixa clara a sua aversão a dogmas e convenções, o que despertou a ira da Igreja Ortodoxa, a ponto de lhe negarem um enterro cristão. Mas Kazantzákis, mesmo na morte, permaneceu fiel ao seu espírito libertário. Na lápide sob a qual repousam seus restos mortais, ele pediu que inscrevessem o seu último suspiro poético: ''Não espero nada, não temo nada, sou livre.''
''O Falcão e o Imperador'', com Letícia Spiller e Jac Fagundes, hoje e amanhã, às 21 horas e domingo, às 19 horas, no Guairinha (Rua XV de Novembro s/nº). Ingressos a R$ 25,00 e R$ 15,00 (estudantes, classe artística e maiores de 65 anos).


