Um menestrel irreverente
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quinta-feira, 20 de março de 1997
Antônio Mariano Júnior 
Arnaldo Alves/Arquivo FolhaJuca Chaves: he, he, he...O mais engraçado em Juca Chaves não são só suas sátiras políticas cantadas ou faladas. Muito menos suas piadas provenientes da mais aguçada observação de fatos e gentes. Nem sequer sua fala mansa e debochada. Há um som onomatopaico que ele produz e que é igualmente avassalador - são os He-he-he de sua risadinha cínica com a qual ele, às vezes, costura seus comentários seja no palco ou fora dele. Mas em se tratando de Juca Chaves é bom prestar bem atenção ao que vem dele no show Socorro, que será apresentado hoje e amanhã, no Teatro Crystal Palace, em Londrina.
É bom deixar bem claro que o menestrel começa seu espetáculo pontualmente às 21h30. Portanto, não é nem 21h29 nem 21h31, conforme mandou avisar a produção. É 21h30 e não tem choro nem vela. Coincidentemente, Londrina é a primeira cidade a receber Socorro, nome do mais novo espetáculo montado por Juca Chaves. Entre uma piada e outra, o humorista vai cantar algumas de suas sátiras políticas e, provavelmente, modinhas consagradas como A Cúmplice e Sentir-se Jovem que chegou a receber elogios do baiano Caetano Veloso e do italiano Pepino De Capri. Tudo acompanhado do inseparável alaúde italiano.
Entretanto, são as piadas que tornam Juca Chaves impagável e mostram toda sua verve humorística revestida de inteligência. Com ele não tem aquela do papagaio e muito menos as manjadas qual a diferença disso para aquilo. Nada disso. Para Jurandir Chaves, escreveu e não leu é analfabeto assim como quem ri por último é retardado. E daí vai.
Sim, o anedotário de Juca Chaves é sedimentado em informações do cotidiano, de comportamentos, de fatos políticos e sociais, enfim, do lado avesso que a mídia - em função da mal-humorada imparcialidade - é obrigada a dizer em tom formal. E o deboche, o sarcasmo e o cinismo, saibam, nada mais são que as formas mais interessantes de se informar algo sobre alguma coisa ou alguém. E nisso, Juca Chaves é imbatível.
Maldito ou genial?Números. Juca tem 39 anos de carreira. Em outubro, completa 59 anos de idade. Já gravou pelo menos 30 discos e fez mais de 5 mil shows pelo Brasil e também no exterior. Incontáveis piadas, bem como incontáveis foram as vezes em que precisou se explicar para a censura durante aqueles anos em que a terra de ioiô e iaiá foi governada por aquele bando de senhores fardados.
Foi, sem dúvida, um dos artistas mais visados pelos censores. Exilou-se em Lisboa e também na Itália. Voltou ao Brasil e, ao contrário de uns e outros, não se candidatou a nenhum cargo público nem saiu por aí defendendo a legalização da maconha ou coisas afins. Foi cantando, se apresentado e, aos poucos, também, observando o fechamento de portas em emissoras de TV e alguns jornais. E ele nem tchuns.
Na década de setenta, nas chamadas de televisão, ele conclamava o público a ir assistí-lo em seus shows para ajudá-lo a comprar caviar e um novo Jaguar. E dá-lhe os famosos he-he-he. Deboche ou verdade? Maldito ou genial? Qualquer que seja a conclusão, o fato é que mesmo fora da mídia - voluntária ou ivoluntariamente? - Juca Chaves é um das figuras do meio artístico mais populares do Brasil.
E a razão é só uma: ele faz rir. Ou melhor: ele sabe fazer rir. Quem não ri das suas piadas e tiradas, ri do seu folclore. E quem não ri do seu folclore, ri pelo menos do nariz. E quem não ri de nada disso é porque não passa de um... um... he-he-he... mal-humorado...
q Juca Chaves - show hoje e amanhã, no Teatro Crystal Palace (Rua Quintino Bocaiúva, 15. Fone 043/321-2526). Ingressos: R$ 20,00 e R$ 15,00 (professores, estudantes e hóspedes do hotel), que podem ser adquiridos no local.


