ReproduçãoCena de ‘‘Ondas do Destino’’, que chega às locadorasDepois de ‘‘O Elemento do Crime’’, que o revelou em 1984, o dinamarquês Lars von Trier arregimentou um fiel cortejo de admiradores, hipnotizados por uma estética experimental simplesmente brilhante. ‘‘Europa’’, que o consagrou em Cannes em 91, manteve o estilo do cineasta e o séquito ainda reduzido de seguidores, mas abriu portas significativas para o circuito internacional - o filme, uma espécie de pesadelo ambientado na Alemanha caótica do pós-guerra, está disponível em vídeo no Brasil.
E em 95, a série televisiva ‘‘The Kingdom’’, realizada em Copenhague, pareceu quebrar a barreira que separava o diretor do grande público. Depois disso, von Trier passou a encarar um novo e maior desafio: tocar profundamente, definitivamente o coração do espectador. Não é de estranhar, portanto, que tenha escolhido realizar ‘‘Breaking the Waves’’ (Ondas do Destino), esta grande história de amor passional.
Quebrar as regras Numa pequena e distante comunidade ao norte da Escócia vive a frágil Bess, isolada do mundo, fora do tempo, dominada por preceitos de um ultra-rigoroso puritanismo. Um dia ela descobre e ama Jan à loucura, apesar da desconfiança dos habitantes. Ele, um estrangeiro que trabalha na prospecção de petróleo em plataforma na costa escocesa, desembarca do helicóptero para encontrar Bess vestida para casar, radiante. Diferente. Desconcertante. Arrebatada.
Quando, logo no início, durante a festa de casamento, ela pede a Jan que a deflore no banheiro do restaurante, Bess não o provoca; é quase uma curiosidade infantil. Espanto e deslumbramento, captados pela câmera com absoluta delicadeza. Não há dúvida. Bess é diferente. E bem mais complexa do que parece.
Descartada a tradução inepta, o original ‘‘Breaking the Waves’’, literalmente ‘‘quebrando as ondas’’, ganha a figuração dupla de desafiar regras. Através da personagem Bess, afrontar e romper com tudo, mas absolutamente tudo que a impeça de ser feliz com Jan. Através do roteiro e da câmera transgressores de Lars von Trier, deliberadamente abruptos, com luz natural ostensivamente ‘‘chapada’’ construindo imagens cruas.
Conversas com Deus ‘‘Breaking the Waves’’ é a história de uma jovem delicada que vai se revelar capaz de encarar de frente o pior com uma força insuspeitada. Há nela certezas intangíveis. Como, por exemplo, acreditar que a bondade tudo pode. Quando a protetora cunhada Dodo diz ao marido imobilizado que Bess está se corrompendo, ele responde que tudo o que ela quer é viver. Quase tudo. Bess quer amar. E nada conta além do amor que a transtorna, e que não cessa de agradecer ao Céu. Suplica a Deus que traga Jan logo de volta da plataforma. Deus atende e devolve Jan. Mas em que estado: paralisado para sempre, depois de um acidente. Ela se apega à única evidência que conta: ele vive.
A partir daí, Bess pode aceitar tudo. Até as duvidosas exigências do marido entrevado que, entre duas operações no cérebro, ordena que ela encontre um amante e conte as intimidades desta nova relação. Ela não duvida que este procedimento deverá manter Jan com vida. Mais: acaba se convencendo de que o amor pode fazer milagres. ‘‘Eu sei crer’’, responde quando Jan insiste em saber de que ela é capaz. Bess, nesse momento, transita pelo território do ascetismo metafísico do dinamarquês Dreyer.
Lições de melodrama Decidido a tomar o credo de Bess ao pé da letra, Lars von Trier teve uma intuição decisiva. Optou por abandonar inteiramente o realismo e se lançar com toda a convicção nesta história improvável, hiper-realista. Uma vez criadas as condições de caos na comunidade que descreve, o diretor, como sua personagem Bess, já não pode voltar atrás. É preciso ir até o fim. A mulher se sacrifica para salvar o homem que ama, estereótipo clássico imposto pelo melodrama. O gênero, dizia François Truffaut, ‘‘é o cinema que não tem vergonha de ser’’. Bess, provavelmente, é a mais desintelectualizada personagem criada por um autor, um cineasta-cabeça que também sabe operar milagres...
Até então impressionado mais com a sofisticação dos filmes deste diretor-cult, o público pode agora ficar impressionado também com a descoberta da emoção. A sedução aqui vem antes dos efeitos estéticos, antes dos preciosismos de imagens que até ‘‘Europa’’ tiveram predominância em sua reduzida filmografia - ‘‘Breaking the Waves’’ é seu quinto longa-metragem.
Bess tem a doçura e a loucura de uma jovem e loura atriz inglesa Emily Watson, diretamente dos palcos do Royal National Theater de Londres para uma estréia fulgurante.

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