Um mar de sangue e sentimentos
ReproduçãoCena de O Resgate
do Soldado Ryan:Ninguém discute a magistral lição de cinema contida nos primeiros 25 minutos de O Resgate do Soldado Ryan. A partir daí, porém, a unanimidade se rende à subjetividade. Há quem defenda o filme sem restrições até o último de seus 167 intensos minutos. Que Ryan, ainda que em sua violência extremada e no horror da representação, seja um extraordinário momento cinematográfico, não há dúvida. Mesmo quando não colhe os melhores resultados, como o generoso mas retórico Amistad, Spielberg tem sempre a força e a invenção do grande cinema popular. Pela quinta vez de volta a um tema que sempre lhe disse respeito - desde seu primeiro Super 8, Escape to Nowhere, até A Lista de Schindler, passando pelo brilhante fracasso de 1941 e por O Império do Sol, todos filmes nos quais a fábula e a moral são evidentes e legíveis - o diretor optou pela Segunda Guerra Mundial.
O resultado é uma honesta, ardente e de certa forma inevitável ambiguidade. Muito já se escreveu e falou sobre os primorosos 25 minutos que abrem o filme, tempo que dura o desembarque da infantaria americana na praia normanda batizada de Omaha, no alvorecer do dia 6 de junho de 1944, com todo o terror da carnificina e o consequente e inevitável heroísmo dos sobreviventes. Este início de puro horror somente foi possível a Spielberg transformar em imagens semidocumentais depois de metabolizar as informações do livro-documento de Steven E. Ambrose, e após quase somatizar as imagens do material filmado por John Ford no local e que ficaram longo tempo censuradas pelo mesmo serviço de propaganda que tinha comissionado o diretor de No Tempo das Diligências. O que se exalta nesta narrativa do prólogo é a estética documental, a busca e o encontro da consciência do espectador, agora livre dos códigos artificiais amplificados da violência a que foi habituada - ou viciada.
Mas o restante do filme, que se fecha simetricamente com outra meia hora de batalha, não menos cruenta que a inicial (ainda que bem mais encenada), traz duas surpresas, uma nem tão surpreendente assim, partindo de quem partiu: o quase sempre asfixiante envolvimento emocional da história do resgate do soldado Ryan, desafortunadamene o último sobrevivente de um quarteto de GLS mandado para o front europeu. O eterno embate razão-emoção assume assustadores e improváveis contornos em Ryan. A racional e provocante sanguinolência do prólogo cede lugar ao olhar sentimental de Spielberg. E a outra surpresa advém justamente deste tratamento cordial (de coração, apenas) da história. Spielberg não discute o problema ético - uma vida vale quantas outras vidas ? - se limita a narrar. Um excesso de rigor definiria grande parte do filme como um longo anticlímax, aquela grande parte pós-desembarque. Mas é até possível perdoar o cineasta quando diz não ter respostas às perguntas que ele mesmo se impõe. E este é talvez um sinal de maturidade, não ter respostas fáceis a questões muito complexas. A única resposta clara é que O Resgate do Soldado Ryan vai sacudir uma geração anestesiada e amnésica, fazendo com que uma guerra, que não é aquela negada do Vietnã ou aquela eletrônica da CNN, salte aos olhos das platéias de todo o mundo. Com o sangue e as vísceras expostas de milhares de outros irmãos de James Ryan. (C.E.L. J.)





