Poucos, como ele, foram tão citados em vão no Brasil. O exagero chegou ao ponto de, numa certa época, todos lhe creditarem a autoria de um poema que não era seu – mas de um obscuro poeta paulistano.
Apropriado por vanguardistas de um lado e engajados de outro, Maiakóvski tornou-se referência obrigatória entre os anos 60 e começo dos 80 sucumbindo ao completo esquecimento na última década. Talvez por isso, a publicação pela primeira vez no país de sua peça ‘‘Mistério-Bufo’’ soe como um ‘‘olᒒ para sua reabilitação.
O livro chega ao público pela editora Musa, com tradução do russo Dmitri Beliaev e em edição bilíngue (russo/português). ‘‘Mistério-Bufo’’ é a primeira peça soviética, um hino à construção do socialismo, escrita no calor dos acontecimentos do célebre outubro de 1917. Trata-se de uma sátira impiedosa da Arca de Noé, com um tratamento nada ortodoxo das convenções dramáticas e na qual o dilúvio era o mundo inundado pela revolução proletária.
Insuflado pelos novos ventos políticos, o texto é obviamente contaminado por um maniqueísmo simplista, hoje inaceitável. No Brasil, a peça exerceu forte influência sobre a montagem ‘‘O Homem e o Cavalo’’, de Oswald de Andrade. Maiakóvski, arauto do futurismo, a escreveu em versos revelando as pesquisas que fazia em torno de um teatro vinculado à tradição popular dos espetáculos de feiras.
Foi a época em que começou a diversificar as atividades artísticas trabalhando também como ator e roteirista de cinema. ‘‘O mistério-bufo é a nossa grande revolução condensada por meio do verso e da ação teatral. O mistério é o que há de grande na revolução; o bufo, o que ela tem de cômico’’ – salientou certa vez. O esboço da peça foi rabiscado em agosto de 1917, dois meses antes da revolução. Mas ele só colocaria o ponto final no ano seguinte.
Nos anos 20/21, retomou o texto alterando personagens e situações a partir de uma idéia cara a seu projeto estético: a de sempre recriar e atualizar a obra a partir do contexto em que estiver ambientada. ‘‘No futuro, todos que encenarem, desempenharem os papéis, lerem e imprimirem o ‘Mistério-Bufo’, mudem o conteúdo – façam seu conteúdo ficar contemporâneo’’ – apregoava no prefácio da segunda versão.
Na edição brasileira, que optou pelo texto embrionário original, a convocação aparece como uma epígrafe na abertura do volume. Na União Soviética, contudo, a peça teve uma trajetória errática. A história de suas encenações é um relato tragicômico de uma incansável batalha do poeta contra a burocracia e os velhos intelectuais. Acolhida num primeiro momento pelas alas progressistas do Partido Comunista, que a adotou para comemorar o primeiro aniversário da revolução, a peça acabou banida dos teatros durante um longo período – até a morte de Stálin.
Sua estréia fora um fiasco, massacrada pelos críticos, que já então acusavam o autor de ser ‘‘incompreensível para as massas’’. Ao que Maiakóvski revidava, proclamando que uma arte revolucionária não cabia no figurino de uma forma convencional. O espetáculo era encenado por Meyerhold com cenografia do pintor Malevitch, ambos vanguardistas. Em 1921, a montagem ganhava mais elementos inovadores com o conceito de ‘‘biomecanismo’’, proposto por Meyerhold.
No palco, os atores exploravam a expressão corporal, a acrobacia, a ginástica em meio a um cenário de escadas, formas geométricas, máquinas, rodas e outras improváveis engrenagens. Nas montagens, os personagens-palhaços vestiam trajes angulosos com estampas geométricas exibindo o requinte dos artistas construtivistas, cujas réplicas foram reproduzidas nas ilustrações da capa desta edição brasileira do texto.
Os principais personagens da peça são quatorze puros (rajá indiano, paxá turco, mercador-valentão russo, persa bem-nutrido, oficial alemão, etc) e quatorze impuros (peão, criado, lavadeira, chofer, padeiro, etc), além de uma dama-histeria, alguns diabos (Estado-Maior de Belzebu e dois ordenanças), uma série de santos (entre os quais Leon Tolstoi e Jean-Jacques Rousseau), um grupo de objetos-personagens (máquina, pão, sal, serra, martelo, etc) e ainda um Homem Simplesmente.
A trama se desenvolve em três atos transportando os leitores/espectadores para o Universo, a Arca, o Inferno, o Paraíso e a Terra Prometida. Os episódios são alinhavados em forma de sketches, reformulando a lenda bíblica em tom bem-humorado. Irregular, a peça contém trechos inspirados e passagens pouco buriladas. Como confessa a própria editora no texto de apresentação, Maiakóvski teria relaxado para apressar a conclusão da obra criando rimas mecânicas e até tolas.
Mais maduro, ele escreveria outras peças incompatíveis com o realismo socialista – a cartilha estética imposta pelos burocratas stalinistas. Em 1930, inconsolável, Maiakóvski abrevia a vida com um tiro no peito deixando uma vasta produção até hoje mais citada do que lida pelos brasileiros.
‘‘Mistério-Bufo’’, de Vladimir Maiakóvski, tradução de Dmitri Beliaev, edição bilíngue (português/russo), editora Musa, 269 páginas.

mockup