UM MANIFESTO CONTRA A OPRESSÃO
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de maio de 2001
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Cannes Especial para a Folha 
Quarta-feira foram as pernas de Nicole Kidman no sulfuroso Moulin Rouge, na tela e na festa suntuosa que se seguiu na Croisette. Amenidades de abertura de festival que também preza e cultiva o lado mundano, ainda que sem admitir ostensivamente. Quinta foi a áspera jornada da dor, patrocinada por Espanha e Japão, colocando Cannes de volta nos trilhos autorais. E ontem Coppola dividiu seu mais recente e agora definitivo apocalipse com a visão de horrores que o iraniano Moshen Makhmalbaf imprimiu em seu novo filme.
Kandahar, enganoso título hollywoodiano dos anos 50 sobre românticas e heróicas aventuras no deserto, é o primeiro grande impacto da mostra competitiva. É a história, contada em 85 minutos, de uma jornalista afegã, Nafas, refugiada no Canadá durante a guerra civil no seu país. Ela recebe uma carta desesperada da irmã caçula, uma entre milhares de mutilados afegãos que perderam pernas pisando em minas e que agora decidiu se suicidar no dia do próximo eclipse solar. Ela parte em socorro da irmã, e tenta entrar no Afeganistão através da fronteira iraniana.O filme narra esta tentativa. E muito mais.
Quem conhece a obra curta mas profundamente significativa de Moshen Makhmalbaf sabe que este cineasta de 44 anos é um homem de idéias e também de sentimentos. É um poeta, como atestam seus filmes O Ciclista, Os Tempos do Amor, Um Instante de Inocência e O Silêncio, todos da última década e exibidos no Brasil. Mas um poeta impregnado de significados políticos e sociais. Kandahar , poema desesperado aqui lançado ao Ocidente, é um filme militante, uma obra-testemunha que denuncia os horrores absolutos cometidos diariamente pelo regime dos talibãs, hoje indiretamente apoiado pelos Estados Unidos, via Paquistão.
O diretor Makhmalbaf recebeu a Folha e outros três jornais europeus e asiáticos em Cannes. Discretamente, a esta altura por razões mais ou menos evidentes, cada um dos jornalistas foi revistado à entrada do apartamento do hotel onde o cineasta concedeu a entrevista. A seguir alguns trechos da conversa.
Como surgiu a história de Nafas, a jornalista que tenta voltar à pátria para salvar a irmã?
Uma vez uma mulher veio me ver em Teerã. Refugiada no Canadá, ela havia recebido a carta de uma amiga que ia se suicidar por causa das terríveis condições de vida em Kandahar. Ela queria que eu a acompanhasse, e este foi o ponto de partida do roteiro. Mas antes de filmar a história fiz uma pesquisa política, econômica, cultural que transformei num livro-manifesto: O Buda Não Foi Demolido no Afeganistão: ele Caiu Sozinho e de Vergonha, que começa a circular agora junto com o filme. Não fui com ela, mas depois entrei clandestinamente no Afeganistão, com uma equipe reduzida, por minha conta e risco.
E no Afeganistão, como foram as filmagens?
Nunca vou esquecer o período que passamos lá, entre a tensão de sermos descobertos, presos ou coisa pior, e o horror no encontro diário com refugiados à morte, como rebanhos de ovelhas abandonados no deserto. Desde aqueles dias e noites vendo tanta gente morrendo de fome nunca mais consigo me perdoar quando como qualquer alimento. Isto é que é curioso no Ocidente. Fala-se muito da destruição das estátuas de pedra representando o Buda, e nada sobre estes seres humanos em perigo de morte. Que absurdo e que vergonha!
Aquelas próteses jogadas do helicóptero da Cruz Vermelha, de pára-quedas, isto de fato acontece ou foi criação sua? (NR: a cena, extremamente cruel, forte e bela, apesar da tragédia, mostra dezenas de mutilados correndo de muletas no deserto, olhando para cima à espera de que uma nova perna literalmente caia do céu...)
É um episódio que inventei. Na verdade o que é jogado de pára-quedas é só a comida. Os afegãos que deveriam trabalhar no filme perderam a perna pisando em minas antes de começar as filmagens. Modifiquei o roteiro em razão desta tragédia.
Segunda-feira, na Folha 2, leia entrevista com Francis Ford Coppola e uma avaliação sobre a versão definitiva de Apocalypse Now mostrada em Cannes.


