Qual o peso da palavra de um intelectual nos dias que correm? Na Itália de sua época, a palavra de Pier Paolo Pasolini equivalia a um estrondo com reverberações à direita, à esquerda e ao centro. Passados 25 anos de sua morte, seu espírito combativo tornou-se quase impensável num mundo que parece ter abolido a figura do intelectual público.
Assassinado em circunstâncias até hoje não esclarecidas, Pasolini deixou uma obra rica e variada abrangendo filmes, romances, ensaios, poemas, artigos, contos e peças. No Brasil, seu nome vai aos poucos sendo apagado da memória e distanciado dos jovens, público a que ele se dirigia com especial fervor. De sua cinematografia, pouco se fala, mesmo porque apenas esporadicamente uma sala ou outra das grandes capitais a retira das teias de aranha para exibir ‘‘Teorema’’ ou a chamada ‘‘trilogia de vida’’.
Dos livros publicados no país, a maioria só pode ser encontrada em sebos. A atualidade de suas idéias, no entanto, perdura com vigor. Há quem as considere proféticas diante da nova ordem mundial globalizada e culturalmente uniformizada. ‘‘Eu não sei nem como nem quando, alguma coisa de humano acabou’’ – escreveu ele no poema ‘‘La Nuova Gioventú’’ expressando perplexidade em meio à ascensão do neocapitalismo na Europa dos anos 70.
Pasolini foi um incômodo para capitalistas, comunistas, cristãos e ateus. Carregou 33 processos nas costas. Sujou pela primeira vez a ficha quando foi acusado de molestar sexualmente um adolescente na cidade de Casarsa, onde era professor primário e havia publicado dois livros de poemas, além de ter participado de lutas camponesas.
Acossado, fugiu para Roma com a mãe. Numa carta a uma amiga, confessou: ‘‘Aqueles que, como eu, têm o destino de não amar segundo a norma, acabam por supervalorizar a questão do amor. Um ser normal pode se resignar – a palavra terrível – à castidade, nas ocasiões perdidas; mas, em mim, a dificuldade de amar tornou obsessiva a necessidade de amar’’.
Homossexual assumido, Pasolini constrangia o Partido Comunista Italiano ao qual era filiado. Irritava seus dirigentes com seus habituais passeios pelas estações de trem para ‘‘caçar’’ garotos de programa. Seu primeiro filme como diretor, ‘‘Accatone’’ (1960), é dedicado à sacralização dos meninos de rua, os ‘‘ragazzi di vita’’, que inspirariam também um dos seus mais conhecidos romances.
Por conhecê-los na intimidade, Pasolini elege os jovens como temas de vários artigos ao longo dos anos, não raro provocando-lhes a ira. Ele critica a moda dos cabelos compridos, o flower power e as drogas. Durante as rebeliões estudantis de 1968, posta-se ao lado dos policiais argumentando que a revolta era ‘‘uma briga de família, uma rixa burguesa’’.
Eram apenas filhos de ricos enfrentando seus pais, não se tratava de uma luta de classes. Assim, ainda segundo ele, os garotos voltariam para o conforto de suas casas depois dos confrontos, enquanto os policiais retornariam à suas vilas proletárias. ‘‘Não acredito em direitos civis, acredito em revolução’’ – pregava. Polemista brilhante, suas posições variavam de um extremo a outro e o conceito habitual de coerência não se aplicava a ele.
De pena afiada, Pasolini atacou ferozmente o que considerava a ‘‘falsa tolerância’’ da sociedade de consumo, que chamava de ‘‘novo fascismo’’. A fase de transição de uma cultura agrária ao modo de produção industrial era vivida por ele como uma catástrofe. O desenvolvimento econômico era responsável por mudanças brutais nos costumes do sub-proletariado urbano, roubando-lhes qualquer resquício de tradição humanista.
Pasolini chega a propor a extinção da TV e da escola obrigatória. Seus filmes retratam essas inquietações, ao mesmo tempo em que refletem as especulações estéticas de um ‘‘cinema de poesia’’ (na definição dele) em oposição ao cinema narrativo tradicional. Inconformado com a nova era hedonista, roda a trilogia da vida (‘‘Decameron’’, ‘‘Contos de Canterbury’’ e ‘‘As Flores das Mil e uma Noites’’) na qual evoca a nostalgia pela velha Itália camponesa e arcaica celebrando o corpo e a liberdade sexual.
Pouco antes, retomou as tragédias gregas – ‘‘Édipo Rei’’ de Sófocles e ‘‘Medéia’’ de Eurípedes – na tentativa de recuperar um tempo ainda não corrompido pelo racionalismo industrial. Nessa época, fazia a defesa apaixonada de um mundo pré-moral, bárbaro (no sentido religioso). ‘‘Eu sou o mais moderno dos modernos, o mais antigo dos antigos’’ – anotou num enigmático artigo.
Acusado de ter se rendido ao cinema erótico digestivo, volta a escandalizar com ‘‘Teorema’’ em 1969, que choca todos os públicos mostrando a desagregação familiar burguesa através de um anjo (protagonizado pelo ator Terence Stamp) que faz sexo com todos os membros da casa. Mas foi com ‘‘Saló ou os 120 Dias de Sodoma’’ (1975), sua obra-testamento, que ele realiza aquele que até hoje é tido como o filme mais infame e insuportável já rodado nas telas.
O filme se divide em três ciclos: das manias, da merda e do sangue – nos quais todas as relações são permitidas, menos as relações ‘‘normais’’, que são punidas com a morte. Contra ‘‘Saló’’, levantaram-se ondas de protestos. Pasolini explicaria que o sadismo descrito no filme seria uma alegoria da redução do corpo a mera mercadoria.
Dias antes de ser assassinado, ele denunciou a mutação antropológica do povo italiano, corrompido pela TV e pelo desejo de consumo. Na noite do dia 2 de novembro de 1975, sua voz se cala. Seu corpo é encontrado de madrugada coberto de sangue, com as orelhas cortadas, na praia de Óstia, próxima à Roma. O acusado, um garoto de programa de nome Giuseppe Pelosi, assumiu o assassinato.
A polícia e a justiça italiana aceitaram a confissão e concluíram o caso. Mas a tese conspiratória de que o crime teria sido encomendado por algum grupo político, nunca foi descartada.

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