O pernambucano Nelson Falcão Rodrigues tornou-se o maior dramaturgo brasileiro ao incitar polêmica nos palcos. O ex-maldito deu voz à classe média urbana brasileira e produziu clássicos na dramaturgia universal (se bem que ainda não reconhecidos fora daqui). Torcedor fanático do Fluminense, o jornalista, romancista e dramaturgo Nelson Rodrigues completaria 90 anos hoje. Batata (como ele dizia)! Por todo o Brasil acontecem homenagens, desde apresentações teatrais, leituras dramáticas e até missas.
De Recife, onde nasceu, ficou apenas o ''gosto da pitanga, do caju e o cheiro de cavalo no estábulo''. Nelson mudou-se criança para Aldeia Campista, no Rio de Janeiro. Aos 13 anos, começou a trabalhar como repórter policial nos jornais do pai, Mário Rodrigues (''A Manhã'' e ''A Crítica''), convivendo com assassinos. Cobria com frequência pactos de morte entre namorados, comuns em Paquetá.
Nelson estava preso a esse mundo por um suspensório velho e fino. Era baixo, mais para gordo, cabelo ondulado e grisalho, mãos de dedos curtos e unhas pequenas. Escrevia à máquina com dois ou quatro dedos. Às vezes, cravava os cotovelos na mesa mergulhando numa grande meditação. Fumava Caporal Amarelinho, um mata-rato fedorento. Era clássico seu convite: ''Venha me pagar um café''. Suas manias eram célebres. Ao acordar comia uma banana amassada com açúcar e depois fumava um cigarro.
Outra mania era dormir tarde e ouvir ópera até altas horas da manhã, no escuro. Ao escrever, suas laudas eram aproveitadas de ponta a ponta, quase não havia espaço entre as linhas. Sempre fazia cena ao escrever. Representava tudo. Ria. Imitava cara de choro. Fingia sofrimento. Fazia-se de vítima de alguma violência. Enfim, era uma figura.
Autor de uma dramaturgia que foi um divisor de águas no teatro brasileiro, miscigenou elementos melodramáticos, naturalistas e expressionistas, com ''Vestido de Noiva'', em 1943. Uma das poucas unanimidades dos palcos nacionais, produziu os clássicos ''Álbum de Família''; ''Senhora dos Afogados'', ''A Falecida'', ''Boca de Ouro'', ''Toda Nudez Será Castigada'', entre outros.
Outra qualidade de NR era a capacidade de criar frases desconcertantes. ''Ou a mulher é fria ou morde. Sem dentada não há amor possível''; ''Só não estamos de quatro, urrando no bosque, porque o sentimento de culpa nos salva''; ''No Brasil, quem não é canalha na véspera é canalha no dia seguinte''. ''Não há solidão mais vil do que a do sexo sem amor'', entre milhares de sacadas.
No cinema, sua obra inspirou mais de duas dezenas de longas e curtas-metragens, a partir de suas peças, romances e crônicas. Os filmes mais significativos são ''Toda Nudez Será Castigada'', de Arnaldo Jabor; ''A Falecida'', de Leon Hirszman; e ''Gêmeas'', de Andrucha Waddington.
Nelson faleceu aos 68 anos em dezembro de 1980. Faltavam alguns minutos para as oito da manhã de domingo. No mesmo dia, Nelson faria 13 pontos da Loteria Esportiva, no teste 526, num bolão realizado entre os amigos. A sorte chegou tarde. Foram 217 personagens criados no teatro de Nelson Rodrigues, a maioria pinçados dos anos de jornalismo e testados em suas colunas diárias e que esperam ganhar voz mundo afora.
Serviço: O documentário ''Retratos Brasileiros Nelson Rodrigues'', será exibido pelo Canal Brasil (Globosat), na segunda-feira, dia 26, às 23 horas. O documentário une depoimentos do crítico de teatro Sábato Magaldi, do diretor Luiz Arthur Nunes, do cineasta Neville D'Almeida, além dos filhos do dramaturgo, Nelson e Jofre Rodrigues.

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