Um maldito ao microfone
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sábado, 14 de dezembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Edvaldo Santana, o bardo paulistano da voz de conhaque, canta hoje em Londrina. O show faz parte da programação comemorativa dos 20 anos do grupo de teatro Cemitério de Automóveis, que desde segunda-feira vem apresentando espetáculos na nova sede da Casa de Cultura, sempre às 21 horas.
O espetáculo de hoje é ''Medusa de Rayban''. Em seguida, sobe ao palco o músico londrinense Eduardo Batistella, sucedido pelo ''Tom Waits de São Miguel''. No show, o artista será acompanhado pelo guitarrista Luís Waack. O repertório vai repassar músicas de seus três álbuns, além de composições inéditas previstas para entrar em seu próximo disco.
Rotulado como ''maldito'' por alguns, Edvaldo Santana tem mais de 25 anos de estrada ostentando uma trajetória independente de pouca visibilidade para o grande público. Ignorado pelas rádios e tevês, desenvolveu uma linguagem musical própria fundindo ritmos diversos como blues, samba, reggae, salsa, funk e levadas nordestinas em discos de escassa difusão como ''Lobo Solitário'' (Camerati, 1993), ''Tá Assustado?'' (Velas, 1995) e ''Edvaldo Santana'' (Eldorado, 2000).
Em entrevistas, ele costuma definir seu trabalho como uma mistura do suingue brasileiro com a melancolia do blues. Pelo caldeirão de gêneros passa também uma poesia urbana de versos ácidos. É sua voz rouca, porém, o que mais arrebanhou entusiastas desde que começou a chamar atenção há dez anos a partir de um show montado em parceria com o poeta e jornalista Ademir Assunção.
O timbre áspero, resultado de um calo nas cordas vocais, tornou-se referência para figuras ilustres como o compositor Itamar Assumpção, o poeta Haroldo de Campos e o crítico Tárik de Souza. ''Minha voz está mais amadurecida. É um processo como o da lapidação de um diamante'' diz ele, referindo-se também ao novo CD em gestação. O disco deve chegar às lojas depois do carnaval, entre março e abril, trazendo um texto de apresentação de Arnaldo Antunes.
Ainda sem título e sem gravadora, vai contar com participações de Lenine, Zélia Duncan, Nuno Mindelis, Quinteto Branco e Preto e Ianiel Matos (pianista cubano radicado há dois anos no Brasil). ''O disco traz parcerias com os poetas Glauco Matoso e Ademir Assunção. Mas, desta vez, assinei a maioria das composições'' conta. Entre as músicas a serem escolhidas figura a inédita ''Surra'', feita pelo poeta Paulo Leminski em sua útima passagem por São Paulo. Edvaldo não definiu se vai gravá-la ou não.
''Estou em dúvida'' explica. ''Leminski, que foi o poeta contemporâneo brasileiro que mais me tocou, gostava do meu jeito particular de tocar reggae ao violão e dizia que, se eu o ensinasse, ele me passaria textos, letras e músicas em troca. Infelizmente, ele partiu para outras esferas deixando essa música para mim''. O novo CD será co-produzido por Luis Waack, o parceiro de palco do show de hoje.
Edvaldo acrescenta que a distribuição talvez seja feita através de bancas de jornais, seguindo o exemplo bem-sucedido de Lobão, a atração musical de amanhã na cidade.
Serviço:
Hoje: Show de Edvaldo Santana, com abertura de Eduardo Batistella. Horário: 22 horas. Local: Casa de Cultura (Rua Mato Grosso esquina com a Av. Celso Garcia Cid, Centro). O ingresso custa R$ 5,00 (R$ 2,50 para estudantes com carteirinha e R$ 4,00 com bônus da Folha de Londrina) e inclui no pacote todas as atividades.


