Mauro Alice guarda a lembrança dos dias de chuva em Curitiba, quando ele, garoto, comia os bolinhos de frigideira preparados por sua mãe. Admira que uma das grandes cenas de ''Noite Vazia'', o clássico de Walter Hugo Khouri que ele montou, seja justamente o flash-back evocativo da infância da prostituta interpretada por Norma Bengell? Ela também se lembra dos bolinhos de frigideira que sua mãe fazia. E ao som do óleo estourando na frigideira superpõe-se o da chuva.
Mauro Alice não é só um montador visual. Também possui como poucos, no Brasil, o segredo da edição sonora. Aprendeu-o na Companhia Cinematográfica Vera Cruz, com seus dois mestres: Oswald Hafenrichter e Rex Endsleigh. Aos 77 anos - bem vividos -, Mauro Alice recebe o repórter em sua casa, no bairro Santa Cecília, em São Paulo, para falar do filme de Hector Babenco que já é um fenômeno na história do cinema brasileiro.
''Carandiru'' bateu todos os recordes de público do cinema nacional no fim de semana de lançamento. Foram mais de 468 mil espectadores em três dias de exibições, com 247 cópias que passaram em 280 salas. Há tempos que Mauro Alice trabalha com Babenco. A parceria começou quando ele fez a edição internacional, da cópia sem som, de ''Pixote, a Lei do Mais Fraco'', no começo dos anos 1980.
Com 60 títulos no currículo - desde os filmes de Babenco e os de Khouri aos 15 de Mazzaropi, que também montou -, Mauro Alice é um veterano respeitado na profissão. Por menos vaidoso que queira ser, estufou de orgulho quando Babenco, na pré-estréia de ''Carandiru'' para convidados, fez uma menção especial à contribuição de Mauro Alice, dizendo que ele é uma daquelas pessoas com quem se pode sempre aprender.
O trabalho de montagem de ''Carandiru'' não foi fácil, pela própria magnitude do filme. Houve um momento em que Babenco e Mauro Alice encontraram-se diante de uma versão do filme com mais de três horas (3h40). Começaram a cortar. Numa entrevista, Babenco disse que tirou do filme tudo aquilo que poderia fazer de ''Carandiru'' um filme de presídio, no estilo americano. Toda a dinâmica interna, cotidiana, do ''Carandiru'' foi suprimida.
Havia um detalhado café da manhã com centenas de presos, que demorou para ser filmado. Nem um só plano foi aproveitado. Mauro Alice lamenta principalmente o corte das cenas que contavam a história de Ezequiel, o personagem interpretado por Lázaro Ramos, o João Francisco dos Santos, pré Madame Satã, do filme de Karim A‹nouz.
''O Babenco filmou toda a história de Ezequiel e eu gostava particularmente desse personagem porque ele fugia um pouco do perfil dos demais. Ezequiel não é um criminoso típico. Surfista, envolveu-se com drogas e participou de um assalto. O azar levou-o ao Carandiru e a história dele, lá dentro, inclusive, é uma sucessão de azares. Nunca vi nada parecido com o Lázaro no cinema brasileiro: no material que abandonamos, ele tem momentos em que se afirma como o grande trágico do cinema brasileiro.''
E Mauro Alice é capaz de ficar falando horas sobre a máscara de tragédia que Babenco colou na cara de Lázaro Ramos. Babenco é um grande encenador. O entusiasmo de Mauro Alice é menor pelo roteiro de ''Carandiru'', mas ele, sensatamente, prefere falar sobre as qualidades do filme. E de Babenco. O momento é de euforia, pelos números superlativos que ''Carandiru'' está alcançando.
Tinha 24 anos quando chegou à Vera Cruz. ''Põe aí 23, para eu ganhar alguns meses, já que sou de dezembro.'' O cinema já estava no sangue. Sobrinho de um grande exibidor, o lendário H. Oliva - o H era de Henrique, aportuguesamento do seu nome, que era Enrico -, Mauro Alice conta que o cinema e a religião eram suas únicas diversões na infância. A família era religiosa e não havia outras opções para um menino do seu extrato social. O cinema terminou virando uma religião.
Chegou à Vera Cruz anonimamente. Virou assistente e, em 1953, recebeu seu primeiro crédito como montador. O filme era ''Candinho'', a comédia de Abílio Pereira de Almeida com Mazzaropi.
Hafenrichter era o montador oficial da Vera Cruz. Famoso no cinema inglês - montou ''O Terceiro Homem'', de Carol Reed, com Orson Welles -, os críticos e historiadores gostam de dizer que ele sacrificava a autoria dos diretores da Vera Cruz à ditadura da técnica. Mauro Alice pensa diferente: ''Ele salvou muitos diretores com sua técnica''.
Até hoje, a voz de Hafenrichter o assombra. Costumava dizer: ''Si pu• sentire the original sound, por favor'', dizia, misturando italiano, inglês e português. Suas máximas eram: ''Verso la fine'' e ''Imóvel, mas não inerte''.
Com Hafenrichter, Mauro Alice descobriu que, na montagem, como na própria dramaturgia do filme, tudo se encaminha para o final, mas esse ''final'', ele percebeu, depois, possui uma sutileza. É a finalidade, o próprio conceito do filme. Quanto ao imóvel, mas não inerte, que Hafenrichter descobriu gravado, em latim, nas ruínas de Pompéia, é a base de tudo o que Mauro Alice faz, a base do próprio cinema, ele acha.
Endsleigh foi o outro mestre. Técnico de som, ensinou a Mauro Alice tudo o que sabia sobre sincronismo labial e trilha de ruídos. Babenco até hoje tem uma confiança cega em Mauro Alice. Outros podem propor-lhe soluções nessas áreas, mas ele sempre pede para verem o que ''o Mauro pensa''.
O currículo é impressionante: inclui desde o clássico ''Floradas na Serra'', de Luciano Salce, também na Vera Cruz, até os filmes de Khouri na empresa, ''Noite Vazia'' e ''O Corpo Ardente'' - que tem, para Mauro Alice, outro ''momento'': a pilha de copos que Barbara Laage observa e que vira metáfora visual da região serrana do Estado de São Paulo na qual ela vai encontrar, no cavalo, a sua animalidade -, os filmes de Babenco.
O diretor de ''Carandiru'' diz que se pode aprender com Mauro Alice. Ele está pronto a compartilhar. Não se considera dono da verdade, no seu ofício. ''O montador tem de trabalhar afinado com o diretor e ambos precisam definir de forma muito clara a finalidade do filme'', diz.

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