Leitoras e leitores de revistas femininas já estão sabendo, sem dúvida. ‘‘Do que as Mulheres Gostam’’, em lançamento nacional a partir de hoje (veja a programação de cinema na página 4) permite lembrar com ênfase: o poder de barganha da mulher não pára de crescer, e sua participação em todos os setores nunca havia chegado a pontos tão elevados. Gente de peso - Hegel, Mallarmé, Aragón - já vinha antecipando em seu tempo o fenômeno da ampla ocupação feminina na sociedade. Já era tempo, portanto, de Mel Gibson também render-se esta evidência.
Publicitário machista, ambicioso, cínico e charmoso, Nick Marshall (Gibson) está no entanto limitado profissionalmente por uma visão estritamente masculina do universo, repudiado pela ala mais feminista de suas colegas. Seu patrão (Alan Alda) lhe recusa uma promoção pelo simples fato de que ele não é mais senhor da situação num mundo onde as mulheres se tornaram o alvo número um da publicidade. E ainda contrata uma nova diretora de criação, Darcy (Helen Hunt). O personagem de Gibson vai driblar este handicap de maneira original. Em manobra que lembra a de Johnny Depp no papel do esquisito diretor de cinema Ed Wood, Nick-Gibson se traveste com plumas, experimenta os rudimentos da maquiagem e, investido repentinamente do estranho poder de ler o pensamento das mulheres que encontra, transforma-se em expert no modo de ser e agir femininos. Claro que escutando e roubando as idéias de Darcy.
Ler as mentes das mulheres poderia converter Nick no maior dos amantes, já que ele agora pode saber com precisão o que elas desejam a cada momento, e quando. O que elas querem e gostam é aqui tão simples quanto redundante: um homem que as ouçam, que interpretem e compreendam seus anseios. Não leva muito tempo para o espectador concluir que os adversários se apaixonarão. O público, mesmo sem ler mentes, e se já viu algum cinema na vida, tem lá os seus próprios dons premonitórios. Mas felizmente, antes que ‘‘Do que Elas Gostam’’ caia na previsível rotina da comédia romântica, a trama decide se deter nas novas habilidades de Nick.
Algumas pequenas complicações no roteiro - a relação irresolvida entre Nick e a filha adolescente e um romance que leva apenas à autoparódia de Gibson - não comprometem a simpatia do conjunto. O filme não é uma comédia romântica pura e nem uma clássica comédia de enredos, embora às vezes flerte com a sitcom, vertente televisiva. Entre uma e outra tendência acaba prevalecendo a forma mais clássica do gênero, reverente, por exemplo, ao estilo do diretor Howard Hawks, com gags engenhosas como na cena na cozinha do escritório ou no encontro amoroso entre Nick e o personagem de Marisa Tomei.
Mel Gibson, já se sabia pelas excentricidades na série ‘‘Máquina Mortífera’’, demonstra estar à vontade também na comédia.

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