Um Machado imune ao tempo
O tempo sempre carrega, em suas mãos, pequenas partículas de poeira. Como possui a mania de tocar tudo aquilo que encontra pela frente, por onde passa deixa tudo sob finos mantos de poeira. Quanto mais o tempo caminha, mantos sucessivos vão crescendo, tornam-se mais espessos, criam raízes no espaço.
Apesar de sua mão infalível, algumas criações conseguem escapar dos pesados mantos de poeira espalhados pelo tempo. A literatura do escritor Machado de Assis é uma delas. Após 90 anos de sua morte, sua obra permanece protegida da poeira que desenha rugas nas escrituras efêmeras.
Quanto mais o tempo avança, mais leitores tomam consciência da profundidade dos textos de Machado de Assis. Paralelamente, os admiradores de sua ficção declaram que quanto mais velho o leitor fica, mais aproveita sua literatura. Isso não significa, de maneira nenhuma, que sua obra é uma arte para velhos, apenas que alguns detalhes expressos em suas palavras exigem uma dose de experiência de vida para ser degustados.
Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 21 de junho de 1839 na capital do império, Rio de Janeiro. Filho de um humilde pintor de parede descendente de escravos africanos, perdeu a mãe aos três anos de idade. Criado pela madrasta, a lavadeira Maria Inêz, o garoto não teve muito acesso à escolaridade, seguindo as noites autodidatas. Nascido pobre e mulato numa sociedade racista, aristocrática, colonialista e escravocrata, o jovem Joaquim teve que agarrar a vida com unhas e dentes.
ReproduçãoReunião dos fundadores da Academia, no Clube dos Diários. Ao centro, sentado, Machado de AssisComeçou a trabalhar, com 15 anos de idade, como aprendiz de tipógrafo na Tipografia Nacional sob a proteção de Manuel Antônio de Almeida. Anos mais tarde trocaria a função de tipógrafo pela de revisor de provas na gráfica de Paulo Brito, onde entrou em contato com grande parte da intelectualidade carioca acendendo seu interesse pela literatura. Na sequência passa a colaborar com vários periódicos do Rio, jornais onde também publica seus primeiros textos literários.
Gago e epiléptico, Machado de Assis encontrou a calmaria casando-se com a doce Carolina, irmã mais nova do poeta português Faustino Xavier de Novais. Pelas mãos de Carolina, Machado entra em contato com os clássicos da literatura portugueses e inglesa - que até então nadavam apenas na literatura francesa. Casado e trabalhando como funcionário público no Ministério da Agricultura, o escritor encontra a segurança para se entregar às letras.
Apesar de sua extensa produção - poesia, crônicas, teatro, ensaio, crítica, conto e romance - foi no conto e romance que Machado de Assis atingiu os mais altos degraus da literatura brasileira
A obra ficcional de Machado de Assis está dividida em duas fases distintas. Na primeira delas, chamada fase romântica, o autor trabalha sob forte influência do romantismo. Desta fase são seus primeiros romances, A Ressurreição (1872), A Mão e a Luva (1874), Helena (1876) e Iaiá Garcia (1878). Na segunda, chamada fase realista, o escritor rompe com o romantismo e mergulha no realismo de maneira inovadora e original. Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) é o romance divisor de águas, considerado sua grande obra. Dialogando com o leitor dentro do próprio texto com ironia e ceticismo, faz uso de um jogo metalinguístico que se tornaria uma das principais características da literatura do século 20. Trata-se do primeiro romance do escritor composto em primeira pessoa e o grande passo para seu mergulho psicológico nas profundezas da alma humana.
Publicado originalmente em 1880, na forma de fragmentos, na Revista Brasileira, a obra foi escrita enquanto Machado de Assis sofria de uma conjuntivite aguda. Em uma de suas cartas ao amigo Carlos Magalhães, deixou registrado: Brás Cubas, em grande parte, não foi escrito, foi ditado à minha mulher. Foi ditado porque eu estava quase cego. Atacara-me uma moléstia dos olhos, que só depois de muito trabalho se foi. Narrada por um homem próximo da morte, o autor abre a obra com a seguinte dedicatória: Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver, dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas. Encerra o livro com uma frase que se tornou clássica: Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.
Ao lado de Memórias Póstumas de Brás Cubas os outros romances da segunda fase, Quincas Borba (1891), Dom Casmurro (1900), Esaú e Jacó (1904) e Memorial de Aires (1908) são as obras mais maduras do período da literatura brasileira. Muitos críticos afirmam que o único defeito de Machado de Assis foi ter nascido no Brasil e escrito em língua portuguesa.
Se tivesse escrito em outra língua européia, seria cultuado pelo mundo afora como um dos grandes gênios da literatura universal. Para a norte-americana Susan Sontag, Machado de Assis é superior e mais importante que o argentino Jorge Luis Borges.
Na visão da pesquisadora Luiza de Maria (Machado de Assis, Editora Brasiliense, 1986) a arquitetura dos romances do escritor carioca mapeia a matéria oculta no interior dos homens. Dirigindo-se ao próprio Machado, reproduzindo seu estilo, escreve: Tens o que chamamos a volúpia do limiar, o gosto de esquadrinhar as sutilezas e fragilidades dos limites, das fronteiras; brincas na precisão de traços de um desenho para, de repente, num piparote ágil, descerrar-nos a outra visão que se esconde sob aquela, num procedimento tipicamente ilusionista que acusa o engano das nossas convicções. Nesta linha, a virtude que beira o defeito; o defeito que visto sob certo ângulo é virtude; o questionamento da loucura servindo de pretexto para se questionar a razão; o duplo sentido como forma de apreender as contradições do real e das ilusões humanas: Nada mais parecido com um conservador que um liberal; a tênue demarcação que separa amor e ódio: Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito; o terrível dilema da escolha, que nos obriga a parecer satisfeitos com uma coisa, quando nos sabemos cobiçosos a querer, pela vida afora, a outra coisa; e, com requintes de narrador experiente, jogando com a estratégia do ponto de vista, entregaste ao leitor o enigma, corporificando em tua obra a ambiguidade do oráculo - todos os oráculos têm o falar dobrado.
Machado de Assis não é um escritor sentimental, daqueles que oferecem ao leitor belos banquetes para os sentidos, para as emoções. Pelo contrário, especialmente em sua genial segunda fase, oferece banquetes para a mente, para a inteligência - tanto pelo conteúdo quanto pela linguagem e estrutura de suas histórias.
Para o acadêmico Alfredo Bossi (História Concisa da Literatura Brasileira, Editora Cultrix, 1984), Machado de Assis rompe com o elo de ligação entre o escritor e as personagens por ele criadas, colocando em prática o distanciamento entre criador e criatura: O manejo do distanciamento abre-se nas Memórias Póstumas que pela riqueza de técnicas experimentais, ficou sendo uma espécie de breviário das possibilidades narrativas do seu novo modo de conhecer o mundo. Foi nesse livro surpreendente que Machado descobriu, antes de Pirandello e de Proust, que o estatuto da personagem na ficção não depende, para sustentar-se, da sua fixidez psicológica, nem da sua conversão em tipo; e que o registro das sensações e dos estados de consciência mais díspares veicula de modo exemplar algo que está aquém da persona: o contínuo da psique humana.
Machado, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras em 1896, morreu em 29 de setembro de 1908 poucos meses depois de publicar Memorial de Aires e três anos depois de perder a amada Carolina. Vítima de arteriosclerose, deu seu último suspiro em sua lendária casa na Rua Cosme Velho número 18. Em Memórias Póstumas, através da voz de Brás Cubas, o chamado bruxo do Cosme Velho deixou escrito: Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirto que a fraqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia. O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte; examine e julgue; mas a nós é que não se dá o exame nem o julgamento. Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.Marcos Losnak
ReproduçãoMachado de Assis está entre os grandes nomes da literatura mundial, alguns o consideram melhor do que BorgesEspecial para a Folha2





