A mistura de situações reais e fictícias move a trama de ‘‘Clandestinos - o sonho começou’’, nova série da Globo. E, entre elas, está a trajetória do idealizador de todo projeto, o diretor e escritor recifense João Falcão. Ao chegar ao Rio de Janeiro, em meados dos anos 80, João sentiu na pele as dificuldades de se destacar em uma cidade grande e cheia de possibilidades. ‘‘Eu não era ninguém. Sei muito bem o que é ser jovem e receber muitos ’nãos’’’, valoriza o diretor. A vontade de mostrar suas ideias bateu de frente com o concorrido mercado artístico da cidade.
  Foi dessas lembranças que surgiu a inspiração para montar um espetáculo que falasse sobre as agruras do início da carreira artística. Assim foi concebida a peça ‘‘Clandestinos’’. Depois de dois anos nos palcos, o texto e os personagens invadem a tevê na série ‘‘Clandestinos - o sonho começou’’, que estreia no próximo dia 4 de novembro, às 23h10, na Globo.
  A internet foi o ponto de partida para a escalação do elenco da peça, que é o mesmo da série. Para a surpresa de João, mais de três mil aspirantes a ator se inscreveram para os testes. ‘‘Foi uma confusão! Nunca pensei que a procura seria desta proporção. Selecionamos 400 pessoas e foram cinco dias de testes até chegarmos ao elenco final’’, relembra.
  Foi justamente esse número representativo de participantes que criou a base para o texto e para as histórias do espetáculo, que ainda está em cartaz. O casamento deste projeto do diretor com a tevê aconteceu quando Guel Arraes – parceiro artístico de João em séries como ‘‘Sexo Frágil’’ e ‘‘A Comédia da Vida Privada’’ e no filme ‘‘O Auto da Compadecida’’ – assistiu à peça. ‘‘As histórias eram engraçadas e muito interessantes. Achei que renderiam muito bem se fossem adaptadas para a televisão’’, conta Guel, que assumiu a direção de núcleo e ainda participou da adaptação do texto ao lado João, Jorge Furtado e Adriana Falcão.
  Para deixar os limites entre ficção e realidade mais próximos, os 18 atores fixos emprestam seus nomes aos personagens. A trama gira em torno do diretor e autor teatral Fábio – alterego de João –, papel de Fábio Enriquez. É dele a ideia de fazer os testes para o espetáculo, onde cada ator tem 90 segundos para mostrar seu trabalho, sem texto e sem regras.
  ‘‘Já fiz muitos testes na minha vida. É algo meio injusto. É um momento que pode mudar a vida de qualquer um’’, avalia Fábio, que na série tem a função de conduzir as histórias ao lado de Elisa, produtora da peça, interpretada pela atriz Elisa Pinheiro. Este personagem é a grande novidade na estrutura dramática da série, já que não existia no teatro. ‘‘Ela é bem estressada e pensa a todo momento em largar o trabalho. Até que ela entende e se apaixona pela ideia do Fábio’’, adianta Elisa.
  As gravações começaram em maio deste ano e concentraram-se em externas no Centro da cidade do Rio de Janeiro e nos estúdios da Globo. A emissora encomendou sete capítulos para esta temporada, com chances de renovação para a grade do próximo ano.
  Para a primeira temporada, João não dispensou algumas participações especiais. Por conta disso, Fábio Assunção e Dennis Carvalho fazem uma ponta no primeiro episódio e Nanda Costa participa de alguns episódios da temporada. ‘‘Minha personagem também se chama Nanda, é uma atriz que acabou de sair de uma novela das oito e está à procura de novos trabalhos. Estou adorando essa brincadeira com a realidade’’, diverte-se a atriz que, curiosamente, acabou de interpretar a Soraia de ‘‘Viver a Vida’’.
  Mesmo sabendo do risco de escalar apenas atores desconhecidos para a série, João apostou no elenco que já tinha em mãos, como Adelaide de Castro, Pedro Gracindo, Marcela Coelho, entre outros. Diante desses novos nomes, o diretor acredita que a ausência de atores conhecidos é uma forma de sair da mesmice. ‘‘A peça lida com o novo, com pessoas que querem ser descobertas. É necessário respeitar o espírito do espetáculo’’, filosofa.

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