A escritora Nélida Pi¤on já não aguentava mais redigir atas e discursos. A primeira mulher do mundo a assumir a presidência de uma academia de letras passa o comando da instituição para Arnaldo Niskier e volta a se dedicar exclusivamente à literatura. ‘‘Rompi com tudo para me dedicar à Academia e não me arrependo. O sentimento é de dever cumprido’’, assegura. Em seu amplo apartamento na Lagoa, na Zona Sul do Rio, Nélida Pi¤on busca tempo para retomar alguns de seus projetos. O primeiro deles é ‘‘O Ritual da Arte’’, um livro de ensaios que fala sobre a experiência de escrever. ‘‘Depois de todos esses anos, ainda morro de medo da página em branco’’, confessa, bem-humorada.
Ao mesmo tempo em que retoma a produção literária - que inclui dois romances e um livro de crônicas - Nélida Pi¤on festeja o relançamento simultâneo de dez de seus 13 livros pela Editora Record. Em edições revistas e com um novo projeto gráfico, os livros relançados abrangem os mais de 30 anos de carreira da escritora carioca, desde seu primeiro livro de contos, ‘‘Tempo das Frutas’’, de 1966, até o último publicado, ‘‘O Pão de Cada Dia’’, de 1994. Para a escritora, esse relançamento atesta o caráter atemporal de sua obra. ‘‘Meus textos não são contingentes ou provisórios. Sou uma autora de águas profundas’’, orgulha-se.
Por que você trocou a ficção pelo ensaio em ‘‘O Ritual da Arte’’?
Nélida Pi¤on - Por conta da minha paixão pela ficção, deixei de lado a minha paixão pelo pensamento. Mas sempre fui uma formuladora de idéias. Gosto de estimular meus alunos e leitores à reflexão. Clarice Lispector dizia que eu tinha de explorar mais o meu lado de ensaísta. Como sempre colecionei anotações, dei aulas e redigi teses, tenho material suficiente para organizar, pelo menos, dois livros de ensaios.
Qual é a sensação de regressar à literatura após um ano na presidência da ABL?
Nélida Pi¤on - Estava morrendo de saudades da minha casa. Já tinha até me esquecido de como era. Durante um ano, vivi como uma completa andarilha. Não tinha hora para nada. Foi um ano de exemplar devoção à ABL, mas não me arrependo de nada do que fiz. Honrei todos os compromissos assumidos no dia da minha posse. Volto para casa com o sentimento de dever cumprido.
É verdade que os demais acadêmicos chegaram a sugerir a sua reeleição para a ABL?
Nélida Pi¤on - É verdade, sim. Eu tinha a reeleição assegurada. No entanto, senti que era o momento de voltar para casa. Não foi nada fácil presidir a Academia. Às vezes, chegava a trabalhar 14 horas por dia e sem qualquer tipo de remuneração. Pelo contrário. A Academia me deu até muita despesa. Mesmo assim, consegui reunir R$ 800 mil só em doações.
Como você avalia a situação do escritor no Brasil? É possível viver de literatura no País?
Nélia Pi¤on - A situação está muito difícil. No exterior, vivo das aulas e conferências que faço. No Brasil, isso não acontece. As pessoas pensam que o escritor é um sacerdote ou coisa parecida, que não precisa ser remunerado. Não gosto de publicar livros apenas pela obrigação de publicar. Conheço escritores que já não têm a estética como opção maior. Sou uma artesã da palavra e não abro mão disso.
O que você faz para contornar essa situação?
Nélida Pi¤on - Em vez de ficar reclamando, resolvi tirar proveito da situação. Comecei a dar cursos e lecionar em universidades. Só de viagens, faço uma média de dez por ano. Antigamente, ficava constrangida de falar em dinheiro. Hoje, sou uma mulher de negócios. Em 92, por exemplo, participei de um concurso com cerca de 80 candidatos de todo o mundo. Ganhei o primeiro lugar e uma vaga de professora na Universidade de Miami. Já estou no sexto ano...
A que você atribui o fato de ser mais reconhecida no exterior que no Brasil?
Nélida Pi¤on - Isso se deve, em parte, ao fato de eu ser mulher. A mulher no Brasil ainda está sujeita ao preconceito. A sociedade literária é interpretada e julgada por homens. São os homens que ditam as regras estéticas. Sei que o mercado literário tenta neutralizar o que não consegue manipular.

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