A celebração começou. O lançamento do CD ‘‘Colecionave Torquato Neto – Todo Dia é dia D’’ (leia texto nesta página) dá a largada para as comemorações em torno dos 30 anos da morte do poeta e compositor piauiense que desfolhou a bandeira e inaugurou a manhã tropicalista na varanda da MPB.
Uma biografia e uma antologia de seus escritos deverão chegar ao público nas próximas estações intensificando o culto ao artista, morto precocemente em novembro de 1972. A primeira, assinada pelo jornalista Toninho Vaz, está ainda em fase de pesquisa.
O autor lembra que a idéia de rastrear os passos de Torquato surgiu após colocar ponto final na biografia de Paulo Leminski, lançada no ano passado pela Record. ‘‘As pessoas me perguntavam quem seria meu próximo biografado’’ – explica.
‘‘Eu respondia sem muita convicção que gostaria de pesquisar sobre Tim Maia ou Torquato Neto. No caso de Tim, várias situações me obrigaram a abandonar a idéia. Mas o Torquato ficou na minha cabeça, embora o considerasse um personagem de difícil acesso pelo fato de não ter deixado um livro em vida e ter uma obra quantitativamente pequena. Quase desisti da idéia, até que me fiz a pergunta: como, a partir de uma produção tão mínima, ele conseguiu exercer tanta influência? Foi o impulso para mergulhar no projeto’’.
Vaz conta que, profissionalmente, sofreu grande influência dos textos publicados por Torquato Neto no jornal carioca Última Hora, onde mantinha a coluna ‘‘Geléia Geral’’, na qual dialogava e polemizava com artistas de várias áreas. A coluna foi um dos bastiões da contracultura e da vanguarda verde-amarela no início dos anos 70.
‘‘Torquato é o típico poeta que não deixa livros’’ – diz. ‘‘É o poeta que não se faz de versos, mas de atitudes, enfrentamentos e perigos. Ele foi o poeta das antíteses revelando-se um transgressor ao longo da vida. Já no parto, ele vem ao mundo a fórceps, de forma sangrenta, nascendo com um corte na cabeça. Sua mãe era beata fervorosa e o pai um espírita de carteirinha. Posteriormente, ele passa a contestar os valores cultivados pela família. Como intelectual, rompe com os diretores do Cinema Novo, briga com a Bossa Nova, isola-se dos tropicalistas e se suicidia mantendo a coerência até o fim’’.
Vaz iniciou as pesquisas para a biografia há quatro meses, colhendo material e depoimentos em Teresina e Salvador, respectivamente a cidade natal do poeta e a cidade em que conheceria Caetano Veloso e todo o grupo baiano. Atualmente, ele refaz o percurso do desembarque do biografado no Rio de Janeiro. ‘‘Já entrevistei 25 pessoas. Acredito que deverão passar de 100’’ – anuncia ele.
Sobre a vida íntima do poeta, que teria supostamente mantido um caso homossexual secreto durante vários anos, o biógrafo não quis adiantar nenhuma informação. ‘‘Na questão da sexualidade, surge uma figura nova, mas tenho que pesquisar mais’’ – desconversa. A surpresa será a publicação de material inédito incluindo 12 cartas escritas em Londres, um conjunto de seis cartões postais enviados da Europa durante seu auto-exílio entre 1969 e 1971 e um poema que teria sido um esboço para a letra da canção ‘‘Louvação’’.
Há ainda uma série de fotografias com o poeta flagrado em cenas dos filmes ‘‘Nosferatu no Brasil’’ e ‘‘Terra da Vermelha’’. ‘‘Consegui também a ficha do sanatório em que ele esteve internado quatro meses antes de se matar’’ – acrescenta. ‘‘Ele se internava voluntariamente. Tentou o suicídio 8 vezes. Conseguiu na nova vez’’. A biografia não tem data definida para chegar ao público.
Vaz pretende entregar os originais para a Record em dezembro, prevendo que o título entre na lista de lançamentos da Bienal do Livro de 2003. Já na editora Rocco, onde a obra ‘‘Torquatália’’ aguarda publicação desde o ano passado, a intenção é tirá-la do forno já neste segundo semestre coincidindo com a data de morte do poeta. ‘‘Torquatália’’ é a terceria versão, agora rebatizada, da antologia de escritos do artista.
A primeira saiu em 1973 numa edição independente e a segunda em 1982 pela Max Limonad, ambas com o título ‘‘Os Últimos Dias de Paupéria’’ e organizadas por Ana Maria de Araújo Duarte (ex-mulher de Torquato e hoje artista gráfica) em parceria com o poeta Wally Salomão. A nova edição, organizada pelo jornalista carioca Paulo Roberto Pires, chegará em dois volumes e acrescida de material inédito incluindo poemas da juventude, críticas, letras de canções, uma foto do artista ao lado de Chico Buarque quando eram jovens, além de uma correspondência trocada com o artista plástico Hélio Oiticica.
No primeiro volume estará toda a produção poética e musical de Torquato. No segundo constará seus textos jornalísticos, garimpados em publicações como Plug, Sol, Correio da Manhã e Jornal dos Sports. A coluna ‘‘Geléia Geral’’, mantida entre 1971 e 1972 no jornal Última Hora, virá na íntegra. Pires assina uma introdução crítica e a cronologia de vida e obra. ‘‘Torquato é o artista da passagem’’ – definiu à Folha.
‘‘Ele cristalizou uma sensiblidade muito rara, mas que se aproxima do intelectual contemporâneo, que é o sujeito que transita pelas coisas não se fixando em nenhuma linguagem, em nenhuma escola e em nenhum grupo. Quando o próprio tropicalismo se transformou em movimento, ele caiu fora’’. Torquato tinha 28 anos quando decidiu abreviar a vida, trancando-se no banheiro com a torneira de gás do aquecedor de água aberta.

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