Um liquidificador de deuses
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 16 de novembro de 1998
ReproduçãoMarcos Losnak Especial para a Folha2 
Nos últimos tempos vários escritores se aventuraram em converter assuntos complexos e extensos em abordagens simplificadas e mastigadas. Para isso passaram a utilizar a literatura, a ficção como argamassa para assentar os tijolos do conhecimento humano. De maneira romanceada, colocam a filosofia, a física, genética, teologia e outras áreas de conhecimento ao alcance de todos. Curiosamente, estas obras concebidas originalmente para o público jovem, passaram a ser consumidas, em sua maioria, pelo público adulto.
Um bom exemplo seria o livro O Mundo de Sofia (Companhia das Letras, 1995) do Jostein Gaarder. Jogando fora o negro tecido da toga do academicismo, o escritor norueguês utiliza a história de uma adolescente de 15 anos de idade para expor de forma simplificada e acessível a história da filosofia ocidental.
Esta mesmo procedimento está presente em A Viagem de Théo da escritora francesa Catherine Clément lançado recentemente pela Editora Companhia das Letras que frequenta a lista dos mais vendidos. O romance conta a história do adolescente Théo conhecendo os princípios das religiões mais praticadas no mundo em diferentes culturas. Se Jostein Gaarder realiza um romance da história da filosofia, Catherine Clément faz um romance das religiões.
Em A Viagem de Théo o personagem possui uma vida comum em Paris até que a família descobre que ele possui uma doença rara e incurável. Tem pouco tempo de vida. Sua tia Marthe, um excêntrica viúva que usa a fortuna da herança em viagens pelo mundo, resolve levá-lo para conhecer os principais centros religiosos do mundo. Em cada um desses lugares haverá alguém que contará a mística e o funcionamento da religião local.
Percorrendo o mundo, Théo entra em contato com a religião egípcia, grega, hinduísmo, jainismo, budismo, judaísmo, cristianismo, islamismo, taoísmo, xintoísmo, ritos africanos, candomblé, zoroastrismo, xamanismo e muitas outras. Associado aos princípios religiosos de cada uma delas, também conhece a História na qual estão inseridas, além de suas divisões e ramificações.
Parece ser um dos primeiros livros que, enfocando a história das religiões, aborda o candomblé brasileiro. Um fato raro se não for único. Um das escalas de Théo e sua tia é a Bahia. Tendo como cicerone um homem chamado Brutus Carneiro da Silva, professor universitário e pai de santo, tia e sobrinho entrarão em contato com a simbologia das entidades afro-brasileiras.
Embora trabalhe com uma obra longa, o que favorece partes cansativas, Catherine Clément consegue expor, de maneira simples, os princípios básicos de cada religião abordada. Apenas escorrega no hinduísmo devido a multidão de deuses e suas correlações. A virtude do texto está em não desprezar o contexto histórico do florescimento de cada religião.


